Witzel irrita Bolsonaro e Mourão ao gravar e divulgar telefonema para o vice

PATRÍCIA CAMPOS MELLO E GUSTAVO URIBE
***ARQUIVO***BRASILIA, DF, 08.10.2019: O presidente Jair Bolsonaro, ao lado do vice presidente Hamilton Mourão, do ministro Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) e do ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil), participa de cerimônia alusiva à alteração da Lei Geral de Telecomunicações, em Brasília (DF). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

DÉLI, ÍNDIA, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) demonstrou irritação com o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), após a divulgação de um telefonema de Witzel para o vice-presidente Hamilton Mourão. A conversa foi gravada em vídeo e divulgada em seguida nas redes sociais do governador.

Na Índia, onde cumpriu nesta segunda-feira (27) seu último dia de visita oficial, Bolsonaro afirmou: "Pelas imagens, ele [Witzel] tá no seu carro e um assessor filma; aí ele liga para o presidente em exercício. Eu acho que não é usual alguém fazer isso. Eu não gostaria que fizessem isso comigo, o que se trata por telefone, tem que ser reservado".

Enquanto Bolsonaro está fora do país, Mourão é o presidente interino. No vídeo compartilhado por Witzel no Twitter, ele é filmado por um assessor enquanto liga para Mourão e diz: "Senhor presidente, boa tarde" e fala sobre os problemas causados pelas chuvas em municípios do Rio e a necessidade de levar água para os locais afetados.

Mourão afirma estar ciente. "Vou pedir para o ministro Fernando [Azevedo, da Defesa] intensificar isso aí", diz. "Qualquer coisa a gente apoia mais alguma coisa aí no RJ, governador. Fica tranquilo."

Em Brasília, o presidente interino também criticou o governador. Segundo Mourão, Witzel esqueceu a ética e a moral ao gravar a conversa sem autorização.

"Em relação ao governador Wilson Witzel, ele diz que foi fuzileiro naval. Eu acredito que ele esqueceu a ética e a moral, que caracterizam as Forças Armadas, quando saiu do Corpo de Fuzileiros Navais. Nada mais eu tenho a dizer a respeito", afirmou.

Mourão acrescentou que falou com Bolsonaro após a divulgação do vídeo e que o presidente comentou que o governador não foi ético.

"O presidente só disse que é uma coisa que não é ética, né. É óbvio. Se você vai gravar alguém, você diz: 'Olha, vou gravar aqui, porque vou botar para o povo do Rio de Janeiro, para saber que estou atuando'", disse.

No Twitter, ao compartilhar o vídeo, Witzel afirmou: "Solicitei ao presidente da República em exercício, Hamilton Mourão, e ao Ministério da Defesa apoio para o envio de água potável às pessoas atingidas pelas chuvas no Norte/Noroeste do RJ. A ajuda do Governo Federal será fundamental para socorrer a população dessa região".

Mais tarde, em nota, o governador disse que o vídeo divulgado "tem somente a intenção de tranquilizar os moradores de cidades do noroeste do estado, fortemente atingidas pelas chuvas".

"A informação de que os governos estadual e federal estarão juntos para atender demandas básicas da população da região não tem qualquer outra conotação que não demonstrar união num momento de necessidade do povo. Por isso é importante e de interesse público."

Witzel, que se elegeu apoiando o então candidato Bolsonaro, manteve alinhamento até meados de 2019. Os atritos são frequentes desde que o governador anunciou a intenção de se candidatar à Presidência em 2022.

No fim de novembro, Bolsonaro acusou Witzel de manipular as investigações do caso Marielle Franco e disse que a sua vida "virou um inferno" desde a eleição do ex-aliado.

O presidente também tem dito que a polícia fluminense, sob Witzel, persegue seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), na investigação sobre "rachadinha" na Assembleia Legislativa do Rio quando ele era deputado estadual.

Como mostrou a Folha de S.Paulo em janeiro, entrar em choque com Jair Bolsonaro parece ser fatal nas redes sociais. A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) e os governadores João Doria (PSDB-SP) e Witzel são exemplos disso, aponta índice de popularidade digital da consultoria Quaest, que analisa o desempenho de figuras públicas no Facebook, Instagram e Twitter.

Quando aliados de Bolsonaro, Joice, Doria e Witzel chegaram a ser líderes do índice em seus grupos (deputados federais e governadores, respectivamente). Após o rompimento, perderam posições no levantamento.

Em agosto e setembro, Witzel foi o gestor estadual com melhor popularidade nas redes sociais, segundo o índice. Quando passou a ser criticado por Bolsonaro e seu entorno, desabou no índice digital, ficando em novembro apenas como o 9º governador mais popular do país.