Xô baixo-astral: na contramão da crise, projetos de expansão e aberturas de novas casas levam esperança ao setor

O Globo
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Alex Mendes / divulgação

Prime rib com batatas e agrião, prato do Tre Torri, restaurante na Barra inaugurado em plena pandemia

Alex Mendes / divulgação

Não dá para negar, a crise sanitária trouxe um tremendo baixo-astral aos mais diversos setores e acertou em cheio a gastronomia. Fechados por pelo menos quatro meses, bares, restaurantes, lanchonetes e confeitarias precisaram se desdobrar para honrar os salários com a pouca ajuda governamental e se manterem vivos com um faturamento mínimo – aqueles que recorreram ao delivery. Muitos resistiram, mas as baixas foram inevitáveis. Os restaurantes Zuka, Puro e Mosteiro, a delicatessen Casa Carandaí e o histórico bar Casa Villarino são só alguns exemplos emblemáticos. Mas nem só de perdas vive a gastronomia carioca nessa pandemia.

Contrariando as expectativas, uma leva numerosa de casas, sejam inéditas ou filiais, ergueram suas portas de junho para cá, quando o plano de flexibilização permitiu que bares e restaurantes voltassem a servir seus comes e bebes. Cozinheira que por dezoito anos respondeu pela boa reputação do Zuka, endereço de cozinha contemporânea na Dias Ferreira, Ludmilla Soeiro partiu para o modelo de delivery e abriu uma cozinha para entregar receitas como o bife de chorizo “quase carbonara”, um steak grelhado servido ao lado de tagliatelle ao molho de queijo, bacon crocante, salsinha e gema caipira (R$ 89). A boa nova é que ela também passou a receber, na varanda da casa na Gávea, mediante reserva, grupos de até seis pessoas em uma única mesa (concorridíssima, claro). Os pratos (consumação mínima de R$ 150 por pessoa) são acompanhados por vinhos ou outras bebidas levadas pelos próprios comensais. “Monto uma mesa no jardim e ilumino com velas. Fica um clima super gostoso”, conta.

No último dia 12, as opções do Jockey Club se ampliaram com a chegada do Nghia (se fala “enguia”), um restaurante japonês que ganha contornos de balada com a apresentação de DJs. Instalado no espaço EXC, o ponto conta com mesas ao ar-livre cobertas por toldo transparente. No cardápio, pedidas como trouxinhas de camarão com shiitake ao molho de ostras (R 26) e a dupla de gunkan de salmão com gema de codorna trufada (R$ 22) são obra do chef Henrique Verdan. Em Ipanema, órfãos do prestigiadíssimo Antiquarius podem matar a saudade de pratos como o famoso arroz de pato (R$ 95), feitos como no emblemático endereço da família Perico. É que profissionais egressos do extinto restaurante, pessoas com mais de três décadas de casa, abriram por lá o Gajos d’Ouro. Da cozinha ao salão, 70% da equipe veio de lá.

A cozinha portuguesa também é a especialidade de nada menos que três tascas abertas recentemente. Inaugurada em setembro, no Leblon, a agradável Tasca Miúda é obra de sócios de outros empreendimentos de sucesso, como a Prima Osteria & Bruschetteria e o Pabu Izakaya – que fica logo ao lado. Mesma vizinhança onde Pedro de Artagão instalou seu Boteco Rainha pouco antes. E no Boxx, descolado complexo gastronômico em Botafogo, a Tasca É Giro, aberta em agosto, vai ganhar uma segunda unidade nesta terça (24). Levará para o NorteShopping delícias como o bolinho de bacalhau, feito à moda tradicional (R$ 9) ou recheado de queijo da Serra da Estrela (18), e o arroz de camarão (R$ 45).

A atmosfera elegante dos balneários franceses mesclada ao estilo descontraído do Rio inspira o Voulez-Vous, recém-chegado ao Leblon. Em ambiente claro e arejado, serve entradas como o croquete de pato servido com molho de mostarda de Dijon (R$ 26) e pratos como o filé-mignon de cordeiro ao molho de hortelã, servido com risoto de alho-poró (R$ 110). Em Vila Isabel, Rodrigo França, Lica Oliveira e Maria Julia Ferreira montaram a Kaza 123, um misto de bistrô e centro cultural que exalta a cultura negra. No comando da cozinha, Maria Júlia prepara receitas de angu com molhos diversos e, nos fins de semana, pratos especiais como bobó de camarão. Na Barra, o Tre Torri aportou na orla para incrementar a oferta de casas italianas. Com o chef Jessé Valentim no comando (ex-Fasano), o reduto à beira-mar serve massas frescas fabricadas no local. Uma dica é o nhoque com ragu de cordeiro, alcachofras e queijo pecorino (R$ 78).

Novas expansões também estão movimentando a paisagem gastronômica da cidade. Em Botafogo, Sei Shiroma acaba de transformar o imóvel do extinto South Ferro na terceira unidade da pizzaria Ferro e Farinha – que terá, em breve um rooftop com bar e parrilha. O Margutta, tradicional endereço de pescados do casal Paolo e Conceição Neroni, chega no fim de dezembro à Barra. E no próximo dia 30 será a vez do Brewteco instalar suas torneiras de chope artesanal no Baixo Gávea. A quarta e maior unidade da rede vai ocupar o imóvel do tradicional Hipódromo, que não resistiu à pandemia. A cozinha carioca se reinventa mais uma vez e encontra neste site apoio firme: o Rio Gastronomia é uma realização do jornal O GLOBO com apresentação do Senac RJ e do Sesc RJ, patrocínio master do Santander, patrocínio de Naturgy e Stella Artois, apoio do Gosto da Amazônia, Água Pouso Alto e Getnet, e parceria do SindRio.