Xande de Pilares faz música para jovem fã que foi atingido por bala perdida na cabeça

‘Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé. Manda essa tristeza embora. Basta acreditar que um novo dia vai raiar. Sua hora vai chegar”. Os versos da música “Tá escrito”, cantada por Xande de Pilares quando era integrante do grupo Revelação, embalaram a jornada pela vida do jovem Caio Douglas Nascimento ao longo de 2022. Depois de levar um tiro de fuzil na cabeça ao entrar por engano na comunidade da Cidade Alta, em fevereiro do ano passado, ele superou os prognósticos e sobreviveu milagrosamente. E, desde a virada do ano, dá sinais de recuperação ainda mais animadores para 2023, cantando as músicas do ídolo, que estão ajudando em sua recuperação.

Uma das motivações foi o presente especial que ganhou do artista. Xande compôs uma canção inédita para Caio e enviou para ele em um vídeo, que emocionou não só o jovem, de 19 anos, como toda a família e amigos envolvidos no tratamento de recuperação dele.

— Eu não tenho palavras para descrever o quanto isso foi especial não só para o Caio, mas para todos que estão nessa história. Isso mudou a vida do meu filho, ele retomou parte dos movimentos após esse vídeo. Você vê o quanto a pessoa é boa em atitudes como essa. O Caio adora o Xande, sempre foi fã, conheceu, já tirou foto antes do acidente. Eu só tenho a agradecer por esse presente para o Caio e para mim, pois trouxe um pouco mais meu filho de volta — disse Alexsandra Nascimento, mãe de Caio.

Após sofrer o tiro, em 1º de fevereiro de 2022, Caio ficou 45 dias internado no Hospital Getúlio Vargas, na Zona Norte do Rio. Ao receber alta, em abril, ele estava com a fala e os movimentos comprometidos, sendo encaminhado para tratamento no Instituto do Cérebro, no Centro do Rio, além de outros especialistas, como fonoaudiólogos e fisioterapeutas. Os prognósticos não eram dos mais animadores. A maior parte dos médicos dizia que as chances de recuperação eram difíceis e que o jovem levaria uma vida de limitações. Mas, para a mãe dele, aquele não era um diagnóstico aceitável.

Foi ela quem descobriu que a música era um caminho para a recuperação. Durante a internação, quando os médicos diziam que o garoto não entendia o que lhe era dito, ela colocou áudios e músicas para ele ouvir, e Caio reagia com os olhos. Como a utilização de aparelhos eletrônicos na UTI era proibida, ela passou a entrar com o telefone celular escondido e aproveitava momentos para usar a música para se comunicar com o filho.

— Todos me diziam que ele não entendia nada, mas eu falava com ele pra se entendesse piscasse os olhos e ele atendia. Essa passou a ser a nossa comunicação. Quando meu filho deu entrada no hospital, me diziam que ele não iria sobreviver, mas eu sabia que ele sairia dali e saiu. Eu dizia que ele iria se recuperar e ele está se recuperando.

Em casa, Caio passou a dormir em um quarto adaptado, com destaque para as camisas do Flamengo, time para o qual torce, e uma televisão onde Alexsandra colocava a todo momento músicas do Xande, a quem o jovem já havia conhecido e tirado uma foto. O cantor, por sua vez, já sabia do ocorrido com o fã e compôs uma música e enviou para ele.

Ao assistir o vídeo, ele surpreendeu ainda mais a todos, ao recuperar parte dos movimentos. Pouco tempo depois, veio a maior de todas as emoções. Com dificuldades de comunicação até então, Caio assustou todos envolvidos em seus cuidados ao começar a cantar as músicas de Xande conforme as assistia.

— Nesse dia eu chorei muito. Isso é algo que só uma mãe é capaz de compreender, porque o meu filho esteve morto. Na porta do hospital eu cheguei a receber condolências pela morte dele. Eu nunca desisti.

Alexsandra relatou aos médicos os avanços obtidos pelo filho, o que surpreendeu os profissionais. O passo seguinte foi deixar o controle remoto da TV com Caio, que hoje em dia já consegue digitar por conta própria a busca pela música que quer ouvir.

Um dos próximos passos no tratamento no Instituto do Cérebro era o preparo para a cirurgia de reconstrução cranial, uma intervenção delicada. A previsão inicial era para que o paciente levasse todo 2023 nesse processo, para quem sabe, ao fim do ano pudesse ser operado. Mas a evolução dele foi tamanha, que a mesma está para ser realizada a qualquer momento.

A fonoaudióloga Amanda Monteiro, que também atua com Caio, conta que precisou mudar todo planejamento do tratamento do rapaz. Fazendo antes um tratamento inicial, cuidando da parte mecânica, diante do avanço surpreendente, ela também passou a usar as músicas e a cantoria como parte do tratamento do jovem.

— Antes nós fazíamos a questão mais mecânica, de repetição. Mas com essa surpresa de ele começar a cantar, eu consigo usar a melodia para o Caio imitar e definir mais a questão das palavras, dos exercícios da musculatura da boa — explica Amanda. — Por exemplo, uma das músicas que ele mais gosta, tem o refrão “lê lê lê lê”, isso por si é já um exercício. Surpreende muito esse avanço, pois a lesão dele foi muito séria. E a música também ajuda, pois traz o paciente as lembranças de antes do acidente e acabam ajudando e motivando a reagir com o tratamento. Com a música ele se engaja mais, pois precisa concentrar com mais atenção para executar as palavras — completa a fonoaudióloga do guerreiro.