Xande de Pilares se emociona com papel em 'Todas as flores' ao relembrar momento difícil: 'Não me esqueci de onde vim'

Depois de ter feito as fotos para esta reportagem de capa, Xande de Pilares contou que nunca antes havia estado tão chique num ensaio de revista. O cenário agora, mais do que nunca, pede mesmo uma apresentação de gala: depois de já ter trilhado uma sólida carreira de sucesso na música, o carioca faz sua estreia como ator numa novela com o personagem Darci, de “Todas as flores”, obra original do Globoplay, de João Emanuel Carneiro. O novo desafio não é um passatempo e está sendo levando a sério.

— Muita gente vai se surpreender. Sou um cara dedicado, estudioso, profissional. E tem várias pessoas que não sabem que tenho esse lado — diz Xande, que foi convocado a fazer o teste para a trama após uma indicação da grande amiga Regina Casé, que vive a vilã Zoé na história: — Quando recebi o convite, fiquei muito feliz, surpreso e com medo, embora já tivesse tido uma experiência muito boa ao atuar no filme “Made in China” (2004) para os cinemas. Hoje estou vivendo uma coisa bem maior.

Em “Todas as flores”, que estreou no último dia 19 de outubro e tem cinco capítulos liberados às quartas-feiras, Xande vive um personagem querido por todos, morador do Morro da Conceição, na Gamboa, e mestre de bateria de um bloco de carnaval. Ainda que seja cria do universo das escolas de samba, ele precisou fazer umas aulinhas para interpretar alguém que comanda os músicos. Tímido nos primeiros dias de gravação, logo se soltou quando viu que os ritmistas na novela eram todos seus amigos. Agora, mesmo estreante nos folhetins, o cantor já se sente confortável para colocar suas marcas no texto:

— Tem algumas coisas do subúrbio que eu gosto de falar e pergunto para a equipe se posso usar. Aí eles me permitem.

A combinação Xande e novelas está longe de ser algo que aconteceu do nada e somente agora. Noveleiro desde criança, ele chegou a ser figurante em “Pacto de sangue”, exibida na Globo em 1989, e, quando estava na escola, fez teatro por três anos.

— Não queria participar do teatro, mas fui obrigado por uma professora, minha amiga até hoje. Ela me achava um engraçado sério. Aceitei, fiz e foi divertido à beça. Isso me ajudou muito, desde quando fiz o filme. Também presto bastante atenção em tudo para ver como funciona.

Para decorar os textos de Darci, a tática do novo ator é ler o roteiro inteiro que recebe como se fosse um livro, mas a veia do samba fala mais alto:

— Faço uma música do texto e fico cantarolando. Gravo e fico ouvindo até decorar.

Tanto é que nos bastidores da novela, de uma conversa com Fabio Assunção, o Humberto da trama, saiu uma canção inédita que Xande irá gravar com Sandra de Sá. E o nome do colega de elenco estará entre os compositores.

— Num dos papos que tive com o Fabio, o parabenizei porque ele passou por um momento muito difícil e não caiu. Continua em pé, firme e hoje está ali atuando. Aí comecei a contar minhas histórias do morro. Ele chegou em casa e disse que tinha escrito umas coisas pra mim. Acabamos fazendo uma canção e o Fabio está pirado porque falou: “Cara, nunca me vi assim fazendo música”. Eu respondi: “Eu nunca me vi atuando”.

Quando contracena com os atores do elenco, Xande não esconde a emoção de trabalhar com artistas a que antes assistia pela TV nas tramas de que tanto gostava:

— Eu achei que ia tremer no dia em que gravei com o Fabio. Em outra cena, tinha Cássio Gabus Mendes de quem também sou muito fã. Pensei: “Nossa, eu via esse povo todo na televisão e agora estou eu aqui no meio. Então vou redobrar a dedicação porque isso é um privilégio” — lembra o carioca, admitindo que já pegou gosto pela nova carreira: — Se as oportunidades se multiplicarem, eu quero continuar atuando. Não consigo assistir a mais nada na TV sem prestar atenção nas técnicas.

Memórias do passado

Incorporar Darci foi um processo emocionante para Xande, que relembrou velhos tempos por conta de alguns detalhes do personagem.

— As roupas que ele usa são as que eu usava num momento muito difícil da minha vida. Quando eu não tinha um tênis para calçar... — diz o cantor, que, nesse momento da entrevista, precisa de uma pausa para segurar as lágrimas. E então retoma: — Na primeira vez que cheguei no cenário e fui vestir a roupa, falei: “Caramba, vou ter que voltar naquele tempo”. Não é tristeza. É emoção de poder passar para as pessoas que sonhar vale a pena. Que aquilo ali não é feio, é uma fase da vida. Acho que consegui entrar no personagem por isso, por não ter me esquecido de onde vim.

A fase a que se refere aconteceu bem antes de o cantor se tonar Xande de Pilares. O carioca tinha cerca de uns 14 anos.

— Às vezes eu queria sair para algum lugar, pegava a roupa do meu tio escondido, ia para o pagode, voltava e guardava a roupa no lugar. Também pedia roupa emprestada. Às vezes minha mãe trazia roupas da madame, pra quem ela trabalhava em casa de família, e eu achava aquilo lindo, ficava todo bobo. Hoje eu faço isso com as pessoas, doo sem nenhuma cerimônia — diz.

Além do figurino, logo na primeira cena já foi surpreendido com um pedido da direção da novela. Feliz com a coincidência, ele conta:

— Subi o Morro da Conceição para gravar minha primeira cena e o diretor me pediu para fazer uma coisa que eu fazia constantemente quando morava no Turano. Lá tinha uma imagem de São Jorge. Eu descia e rezava, subia e rezava, pedindo proteção. Eu não sabia que tinha uma imagem ali na gravação também. E tinha! Por isso eu acredito em destino.

Alexandre, seu nome de batismo, já foi metalúrgico, jardineiro, carregador de compras de supermercado, faxineiro, contínuo, office-boy, trabalhou com serviços gerais na área de teatro e depois na de música na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e no barracão do Salgueiro, onde teve o primeiro contato mais direto com o universo das escolas de samba. Ser cantor nem era uma vontade:

— Eu queria era ser compositor. Gostava de cantar, mas não queria ser cantor, e sim, fazer música. Aí o Bira Haway (produtor musical que trabalhou com o grupo Revelação) botou na cabeça que eu tinha que cantar, então comecei a me preparar para isso.

Quando ele enumera as regiões onde já morou, a lista também é extensa e inclui lugares como o Morro do Turano, onde nasceu, Andaraí, São Gonçalo, Jacarezinho, Oswaldo Cruz, Bento Ribeiro, Realengo, Engenheiro Pedreira, Pechincha e Barra, onde mora hoje.

Como Seu Darci, Xande vem de uma família grande. Hoje tem dois irmãos por parte de mãe e dois por parte de pai, além de ter perdido duas irmãs (de 6 e 2 anos) em um incêndio em Engenheiro Pedreira, na Baixada Fluminense.

— Eu não tive uma bicicleta, aquele tênis que queria ter... Mas não passei dificuldade. A gente comia muito bem, não era aquela coisa de carne todo dia, mas fui criado dentro da coisa do respeito — relembra.

O nome artístico, Xande de Pilares, veio por homenagens:

— Eu era muito fã do cantor Carlinhos de Pilares. Ele era irreverente, engraçado, carismático. O Guará (primo de Xande) disse que ia botar meu nome de Alexandre de Pilares. Só que tinha o Alexandre da Imperatriz, e na Caprichosos tinha um Xande, mas só Xande. Aí vem o Nando da Abolição, hoje chamado Nando Poeta: “Xande de Pilares”. Eu não queria ficar com “de Pilares” para não imitar o Carlinhos, mas, ao mesmo tempo, eu queria porque gostava muito de Pilares. Embora role até um ciumezinho da comunidade onde eu fui criado, Águia de Ouro, em Inhaúma. Mas me aperfeiçoei no cavaquinho, estudei, fui na primeira missa em Dia de São Benedito... Tudo em Pilares. Tem que respeitar a história.

Saúde em meio à rotina

Para dar conta da nova atribuição como ator, a agenda do músico, já lotada de shows, se apertou ainda mais. O sambista precisou abrir mão da rotina de exercícios físicos que estava seguindo, por exemplo. Antes, de segunda a quarta-feira, Xande podia descansar e estudar. Hoje, decora textos e comparece nas gravações da novela. A partir de quinta e nos fins de semana, roda o Brasil com suas apresentações. E que horas dorme?

— Não durmo (risos). Brincadeira. Quando viajo, aproveito o tempo que tenho antes dos shows para dormir. É punk, mas, graças a Deus, nunca parei de trabalhar — diz ele.

Para cuidar da saúde em meio a tanta agitação, boa alimentação não falta. Ainda mais ao lado de Mikimbeth, sua namorada, que é nutricionista. Nas redes sociais, o carioca contou que entrou na novela pesando 92kg e hoje está com 84:

— Também faço exercícios vocais direto e tem meu vinhozinho, que não pode faltar (risos).

O vinho é coisa recente na vida do cantor, de 52 anos. Começou a beber aos 40, quando apostava no whisky com energético. Mas um susto na saúde o fez largar a combinação. Ele recorda:

— Minha pressão ficou alta, nunca tinha sentido aquilo na vida. Acordei com o coração acelerado e fui parar no médico. Eu não bebia antes e, aos 42 anos, o coro comeu. Aí parei. Depois, me encontrei no vinho.

O cuidado com a saúde mental também está presente na vida do artista, que fez terapia para tratar a timidez que tanto já o assombrou.

— Já paralisei, fiquei rouco... Hoje eu consigo chegar e virar o jogo, trocar ideia, trazer para perto. Mas, quando se deixa a timidez dominar, já era. A minha não me domina mais não — afirma Xande, que também encontrou ajuda na atuação: Depois que comecei a trabalhar como ator, passei a se soltar mais em cima do palco nos shows. Eu também tinha mania de chegar nos lugares, ver determinados artistas e me achar muito pequenininho, ficar num canto. Ainda tenho isso, mas bem menos atualmente. Acho que no fundo tenho demais essa coisa de querer respeitar o espaço do outro.

Família e relacionamento

Xande e Seu Darci têm muitas coisas em comum: ligados ao mundo do samba e ao morro, ambos são apaixonados por suas famílias... Apesar disso, o intérprete do personagem aponta que, por vezes, o marido de Chininha (Micheli Machado) exagera. O cantor já aposta que o público vai classificar o mestre de bateria como um banana, principalmente pela forma como ele vai reagir ao ser traído pela mulher.

— Eu já traí e também fui traído. Na época foi punk, mas reagi como meu personagem, pacificamente. A diferença é que não aceito de volta quem me traiu, muito menos com o amante. Darci chega até a ceder o quarto dele para os dois (risos).

O cantor e Mikimbeth, nome artístico de Thay Pereira, estão juntos há pouco mais de três anos. Além de ter se formado em nutrição, a jovem, de 23, é técnica de enfermagem e atriz. Em casa, ela ajuda o namorado a passar os textos da novela.

— Eu criticava quem namorava mulher mais nova. Antigamente, só gostava das mais velhas que eu. Aí fui fazer o clipe de uma música minha, ela me pediu para eu gravar uma mensagem para o pai, começou a amizade e daqui a pouco estávamos juntos — lembra Xande sobre o início do romance.

O apelido da moça, aliás, foi dado pelo sambista:

— O pai dela é Mikimba, e eu, como sou o rei dos apelidos, falei: “Então você é a Mikimbeth” (risos). Ainda registrei e dei a ela: “Isso aqui é seu registro para ninguém pegar tua parada”.

Na novela do Globoplay, o mestre de bateria é pai de Javé (Jhona Burjack). Na vida real, Xande tem dois meninos:

— Tenho um filho que mora em Belém (Alexandre Junior), com 22 anos, quase não vejo. E outro que mora no Rio (Alexandre Lucas), com 23 anos, que consigo ver mais hoje em dia. Mas o crescimento dele não deu para acompanhar porque na época do Revelação (Xande saiu do grupo em 2014) eu viajava o tempo todo. Estou aprendendo a ser pai agora, depois de velho. Acho bonita essa relação. Seu Darci com Javé é assim, ele incentiva o rapaz o tempo inteiro.

Representatividade e sonhos futuros

Parte de um núcleo majoritariamente composto por artistas negros em “Todas as flores”, com nomes como Zezeh Barbosa, Mary Sheila, Doulgas Silva e Mumuzinho, Xande observa:

— É importante ter referências. O papel do Oberdan, por exemplo, feito pelo Douglas, não é de um negro massacrado. É um cantor de sucesso. E se hoje tem dez ali, podem virar 60, 600, um milhão. Eu sinto a responsabilidade de fazer parte disso, principalmente porque ainda vou no morro, minha família mora lá: — Minha avó continua no Turano, não quer sair. Já tentei várias vezes, mas ela não aceita. As pessoas que estão em volta não sabem como funciona, podem achar que eu abandono.

O cantor conta que já enfrentou o preconceito vindo da mãe de uma namorada no passado e lembra um episódio de racismo que aconteceu antes de começar a carreira na música:

— Foi na época em que fiz um curso de computação no Méier, ia fazer 18 anos. Fui todo bobo pra fila, então veio uma mulher e me olhou de cima a baixo. Ela vinha sorrindo pra todo mundo, mas, quando chegou em mim, fechou a cara. Fiquei puto pra caramba. Nunca esqueci aquele olhar. E botei na minha cabeça que ela ia ter que me ver brilhar. Temos que conquistar o que eles acham que nós não vamos. A minha resposta é com trabalho.

Xande está radiante com o novo desafio e os aprendizados que vem tendo ao gravar sua primeira novela. Mas nem todos os sonhos da sua lista já foram realizados. Ele compartilha:

— Na época em que eu estava no Revelação, fomos indicados para tudo: Grammy Latino, Multishow... Não ganhamos nenhum. Tenho esse grande desejo ainda de conquistar uma estatueta dessas através da minha música, ser reconhecido. Quero olhar para o meu troféu e pensar que valeu muito a pena.

No folhetim, o papel de músico famoso ficou a cargo de DG. Ultrapassando as barreiras da ficção, de cantor para cantor, eis o conselho que Xande de Pilares daria para Oberdan:

— Não cantar por dinheiro, mas sim, por amor. E gostar do que faz. Por isso que eu estou aí até hoje, porque sou apaixonado pela música. Não estou nesse meio para ser o cara, para ter sucesso nem quero ser o melhor. Estou porque gosto mesmo. A música para mim é como uma mãe, me carrega no colo a vida toda. Só vou aonde ela manda.

Fotos: Renata Xavier (@renataxavierfoto)

Assistente de fotografia: Leandro Lucas (@leandrolucasfoto)

Styling: Rodrigo Barros (@rg_barros)

Assistente de styling: Giulia Costa (@giuliabcosta)

Agradecimento: Hotel Vila Galé (@vilagale)