'Xepa' da vacina: Cresce movimento de pessoas que vão a postos de saúde do Rio tentar sobra de doses

Felipe Grinberg e Arthur Leal
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Assim que o relógio marca 17h, a expectativa toma conta de um grupo de pessoas no Centro Municipal de Saúde João Barros Barreto, que funciona num terreno arborizado em Copacabana. Apesar de a recepção estar vazia e sem pacientes à espera de atendimento, cerca de 20 pessoas aguardavam, nesta terça-feira, nos fundos do posto, que faz divisa com o estacionamento do 19º BPM. No grupo, não há nenhum idoso acima de 90 anos ou profissional de Saúde, que são alvos da atual etapa da imunização contra a Covid-19 na cidade, mas todos ficam ali até o fim do expediente. Se perguntados o que fazem na porta da unidade, eles próprios dizem que aguardam pela “xepa”.

O termo, conhecido por designar as compras no fim da feira, passou a ser usado por quem vai atrás das sobras da vacina Oxford/AstraZeneca que, embalada em frascos com dez doses, precisa ser imediatamente utilizada após o lacre ser aberto.

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O fenômeno é a prova de que a vacina, ao contrário do que se temia, é popular. E não há irregularidade no comportamento de tentar uma vaga para receber doses excedentes da vacina, o que também ajuda a garantir que não haverá desperdício. Após ser retirado o invólucro, é preciso usar a vacina em até seis horas. Como os funcionários são orientados a só abrirem a embalagem do imunizante se houver, no mínimo, dez pessoas no posto, não é fácil ser contemplado pela sorte. Não bastasse isso, os “xepeiros”, em caso de haver dose não utilizada, serão convocados por ordem de idade.

Nesta terça-feira, no fim do horário de vacinação, um funcionário da unidade apareceu para anunciar a notícia tão ansiada: com devoção quase religiosa, quem está ali no “gargarejo”, onde os agentes vacinam o grupo prioritário, escuta um habemus vacina — na verdade a coisa é mais objetiva, o servidor disse que havia uma dose e perguntou quem era o mais velho. Uma mulher, que não quis divulgar seu nome, venceu a disputa da idade. Os outros começaram a deixar o local, momentaneamente decepcionados, mas motivados a continuar na luta.

Moradora de Ipanema, a publicitária Celina Quintas, de 63 anos, saiu avisando que deve virar cliente usual da “xepa”. Pelo calendário oficial, ela está entre os que deverão ser vacinados em março, pelo critério de idade. Atrasada, ela conta que ontem, ao chegar, já não havia mais doses:

— Costumo andar muito, então estou pensando em ir a Gávea, Botafogo e Catete nos próximos dias. Aqui já imaginava, pelo perfil do bairro, não conseguir. Mas foi uma tentativa. Todos estão ansiosos pela vacina, né? — admite ela, num fresco vestido vermelho de bolinhas e chapéu, que se adequavam ao calorão de mais de 30 graus que fez nesta terça.

Se Celina perdeu o horário, há muitos que levam a corrida pela vacina tão a sério que madrugam. Uma mulher, de 34 anos, que não quis se identificar para o jornal, contou ter chegado à clínica de Copacabana às 11h. Perto dela, outra tinha chegado às 15h e se vangloriava de ser a segunda pelo critério idade e a sétima por hora de chegada na fila. Mas preferiu não falar muito. Pelo critério da idade, a candidata de 34 anos vai ter que gastar muita sola de sapato e contar com o destino. Frustrada, ela perdeu até a noção de que há critérios para a fila, mesmo a de doses extras:

— Passaram gente na minha frente para tomar a última dose.

Rio de Janeiro chega a 30 mil mortes

Para Gulnar Azevedo, professora de epidemiologia da Uerj e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), a procura pela vacinação é positiva. Ela elogiou a conduta da equipe de profissionais de Saúde que elegeu o critério da idade para decidir quem ficaria com a dose extra.

— Como temos uma oferta de vacinas muito aquém do necessário, não pode haver desperdício. É preciso um planejamento bem feito para garantir que as pessoas que mais correm risco sejam vacinadas — avalia Gulnar, que vê com otimismo o fenômeno. — As pessoas estão exercendo a cidadania e, ao mesmo tempo, mantendo a solidariedade pois não foi dada carteirada. Vamos precisar de muita comunicação para que todos se respeitem e colaborem.

Nesta terça, o Rio de Janeiro registrou 156 mortes e 3.278 novos casos de Covid-19. Com isso, o estado ultrapassou a marca dos 30 mil óbitos desde o início da pandemia, em março. O número total de infectados com o vírus agora chega a 526.276. O cenário, hoje, é de estabilidade na curva da doença.

Uma nota técnica da prefeitura orienta que as equipes tentem ao máximo não desperdiçar doses das vacinas. Por isso, a regra é que, se sobrar alguma para ser aplicada, que seja escolhido alguém que faz parte do grupo de risco. A nota alerta para o uso racional do imunizante: “Não desperdice doses de vacina!”.