Xi diz a Biden para EUA não brincarem com fogo em Taiwan

*ARQUIVO* BRASILIA, DF,  BRASIL,  17-06-2014, 10h00: O presidente americano Joe Biden durante declaração à imprensa na Embaixada Americana em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASILIA, DF, BRASIL, 17-06-2014, 10h00: O presidente americano Joe Biden durante declaração à imprensa na Embaixada Americana em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Enquanto a comunidade internacional assiste a uma nova fase da guerra da Rússia contra a Ucrânia, a Guerra Fria 2.0 entre Estados Unidos e China voltou a ter um pico de tensão que obrigou os líderes Joe Biden e Xi Jinping a fazerem sua quinta conversa desde que convivem como chefes de Estado.

O motivo desta vez foi Taiwan, devido à possibilidade de a presidente da Câmara dos EUA, a democrata Nancy Pelosi, visitar a ilha que a China considera uma província rebelde. Em uma ligação de mais de duas horas, Xi repetiu as palavras usadas numa cúpula virtual em novembro, dizendo que os americanos poderiam se queimar se brincassem com fogo ao apoiar sentimentos de independência taiwaneses.

A deputada pretende visitar a ilha em agosto. Realizada, será a visita da mais alta autoridade americana desde que o republicano Newt Gingrich, que ocupava o mesmo cargo de Pelosi, foi a Taipé em 1997.

O Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que tal viagem da número 2 na linha sucessória americana equivale a uma violação de soberania. "Quem brinca com fogo só se queima, espero que o lado americano veja isso claramente", disse Xi a Biden, de acordo com a mídia chinesa.

Segundo a Casa Branca, Biden disse que mantém sua política para Taiwan. Ou seja, o respeito formal à ideia de "uma só China" que norteia as relações entre os países, mas também o apoio a Taipé. Afirmou rejeitar "iniciativas unilaterais" que desestabilizem a região, o que serve tanto para Xi quanto para Pelosi. No Congresso dos EUA, trabalha-se com a hipótese de que a viagem ocorrerá, segundo a mídia americana.

O próprio Biden reconheceu na semana passada que a viagem era "uma má ideia". O líder democrata enfrenta baixa popularidade e eleições de meio de mandato em novembro, quando assentos na Câmara e no Senado serão renovados, e tudo o que não precisa é de uma nova crise para administrar.

O mesmo vale para Xi, que deve ser reconduzido no mesmo mês do pleito americano para um inédito terceiro mandato de cinco anos como líder da ditadura chinesa, mas está sendo desafiado por uma série de problemas, que vão das dificuldades em manter sua política de Covid zero no país a riscos econômicos sistêmicos, o que tem levado a boatos sobre dissenso interno no Partido Comunista.

Na mão inversa, ter a popular questão de Taiwan em destaque ajuda a trazer o foco da opinião pública para algo diverso. No começo do mês, Pequim enfrentou um raríssimo ato público em Henan, onde moradores foram a uma agência do Banco da China protestar por problemas de acesso a seus depósitos.

Os EUA estão numa escalada de apoio a Taiwan desde que a Guerra Fria 2.0 contra a ascensão chinesa foi lançada pelo ex-presidente Donald Trump, em 2017. De lá para cá, tornaram-se frequentes viagens de autoridades americanas, mas de escalões mais baixos, à ilha. Invariavelmente, as investidas são respondidas com incursões de aviões militares chineses ou exercícios navais no estreito de Taiwan.

Tais ações militares se intensificaram nos últimos dois anos de forma independente também, fazendo Taiwan considerar que a invasão chinesa pode ocorrer a qualquer momento. Há dúvidas práticas, dadas as dificuldades do terreno, como o treinamento anual Han Kuang, em curso em Taiwan, busca explicitar.

Mas um bloqueio é mais factível, embora envolva o mesmo limitador para Pequim, que é o compromisso dos EUA de defender Taipé, arriscando uma guerra entre as potências. Na imprensa chinesa, nacionalistas mais incendiários chegaram a defender que o país derrubasse um avião com Pelosi, o que obviamente não parece estar na agenda. Mas que a visita trará uma resposta militar, isso parece incontornável.

Nos últimos dias, foi revelado reforço de caças da família de origem russa Flanker na base de Longtian, em Fujian, província que mira Taiwan através do estreito e dá nome ao novo porta-aviões do país.

Apesar da disposição diplomática, os EUA mantiveram a musculatura militar em dia. A Marinha americana anunciou também nesta quinta-feira o envio do grupo de porta-aviões liderado pelo USS Ronald Reagan para o mar do Sul da China, outro ponto focal da rivalidade com Pequim.

O recado é claro: a posição americana de que o mar que tem 85% da área reclamada pela ditadura comunista é basicamente um lugar de livre navegação. As reivindicações chinesas se baseiam na militarização de ilhotas e atóis, o que a ONU descartou como válido em 2016.

O grosso das importações e das exportações da China passa por aquelas águas, e Pequim vê o movimento dos EUA e de aliados como uma forma de manter aberta a porta para bloqueios no futuro.

Na imprensa chinesa surgiu a especulação de que o Ronald Reagan poderia ser deslocado para atravessar o estreito de Taiwan durante uma eventual visita de Pelosi, para dissuadir ações mais ostensivas dos chineses. É de se supor que Biden não faria isso, dado que abriu a porta para conversar com Xi.

As tensões, contudo, seguem em alta. Xi é aliado de Putin e já foi admoestado por Biden a não fornecer uma linha de oxigênio econômico ao russo. De nada adiantou: a China só fez aumentar as compras de hidrocarbonetos da Rússia, ajudando a manter Moscou acima da linha d'água mesmo sob sanções.

O caso da Ucrânia é apontado pelos EUA como modelo do que pode acontecer com Taiwan, embora os casos sejam bem diferentes. A interdependência econômica entre EUA e China também é fator importante na redução dos riscos.

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