Xi Jinping elogia “verdadeira democracia” em Hong Kong e novo governo local toma posse

AP - Selim Chtayti

Em visita para celebrar o 25º aniversário do retorno de Hong Kong ao domínio chinês, o presidente Xi Jinping elogiou, nesta sexta-feira (1), a governança do território, saudando uma "verdadeira democracia". Em seu discurso, Xi Jinping afirmou que o Partido Comunista Chinês sempre agiu pelo bem de Hong Kong, apesar da dura repressão por parte da China às manifestações pró-democracia de 2019

"Após a reunificação com a pátria, o povo de Hong Kong tornou-se senhor de sua própria cidade", disse ele, assegurando que a "verdadeira democracia" havia começado naquela época. Esta é a primeira viagem do presidente chinês fora da China continental desde o início da pandemia de Covid-19 e a primeira em Hong Kong, após o movimento pró-democracia de 2019. "Depois de tudo o que aconteceu, aprendemos que Hong Kong não pode ser dominada pelo caos e não pode permitir o caos", disse Xi Jinping. A cidade "deve focar no desenvolvimento", completou.

Posse do novo governo local

A cerimônia contou, também, com a posse do novo chefe do Executivo local, John Lee, ex-chefe de segurança de Hong Kong, que desempenhou um papel importante na repressão do movimento pró-democracia.

Lee, de 64 anos, foi designado em maio para o cargo de chefe do Executivo, com 99% de votos de um comitê de 1.461 personalidades partidárias do governo de Pequim. "É minha maior honra, hoje, assumir esta missão histórica que me foi confiada pelas autoridades centrais e pelo povo de Hong Kong", disse Lee , agradecendo a Pequim por seu apoio.

A chegada de John Lee marca uma ruptura com os quatro chefes do Executivo que o precederam, desde o retorno de Hong Kong ao domínio chinês, em 1997, todos do mundo dos negócios ou da administração. Xi Jinping disse que o governo do ex-policial abre "um novo capítulo para o desenvolvimento de Hong Kong".

John Lee, um católico educado com os jesuítas, cresceu no bairro popular de Sham Shui Po. Ele desistiu de estudar engenharia para entrar na polícia. Mais tarde, disse a um jornal pró-China que fez essa escolha por vocação, após ter sido intimidado e espancado por bandidos, quando criança.

Casado e com dois filhos, ele é discreto sobre a sua família e se recusa a dizer se a esposa ainda tem nacionalidade britânica - que ele renunciou ao entrar no governo. Lee prometeu fazer da "segurança nacional" uma de suas prioridades e continuar a campanha de repressão à dissidência iniciada por sua antecessora, Carrie Lam.

"O governo central conhece bem John Lee. Ele tem contato e interação constantes com a China continental", explicou o empresário Michael Tien, membro pró-Pequim, do Conselho Legislativo de Hong Kong.

Economia

A comunidade empresarial de Hong Kong espera ações no campo da economia. O terceiro maior centro financeiro do mundo praticamente se isolou desde o início da pandemia de Covid-19. "Espero que ele pense na competitividade internacional de Hong Kong e não perca tempo aprovando leis que não ajudam a economia da cidade", disse Danny Lau, presidente-executivo de uma associação de pequenos empresários.

“Um país, dois sistemas”

A data de hoje marca, também, a metade do período de 50 anos de semiautonomia de Hong Kong, guiado pelo princípio "um país, dois sistemas", negociado entre Londres e Pequim. Até 2019, o dia 1º de julho era uma oportunidade de demonstrar as liberdades individuais das quais beneficiavam os moradores do território, com milhares de pessoas nas ruas para expressar suas demandas políticas e sociais. Porém, os protestos estão proibidos pela polícia.

Críticos apontam retrocesso

O primeiro-ministro de Taiwan, Su Tseng-chang, declarou à imprensa de Taipei que a liberdade e a democracia desapareceram de Hong Kong. O partido comunista nunca dirigiu Taiwan, mas considera a ilha como uma parte de seu território e ameaça retomá-la no futuro.

"Você só precisa ver o sofrimento do povo para saber se Hong Kong está indo melhor ou pior", disse ele. "Faz apenas 25 anos e, no passado, a promessa era de 50 anos sem mudança", acrescentou, referindo-se ao comprometimento de Pequim de que Hong Kong poderia manter suas liberdades até 2047.

Os críticos do governo denunciam que a lei de segurança nacional, imposta em 2020 por Pequim, destruiu as liberdades conquistadas até então.

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, lamentou, na quinta-feira (30), a "erosão da autonomia" causada por esta lei no território. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, prometeu não "desistir" de Hong Kong. Críticas ignoradas por Xi Jinping que, nesta sexta-feira, elogiou o princípio "um país, dois sistemas" como "um bom sistema" e que "deve ser mantido a longo prazo".

Programação restrita

As pessoas no entorno de Xi Jinping durante a viagem a Hong Kong, incluindo altos funcionários do governo, foram instruídas a limitar ao máximo os contatos e fazerem testes diários contra a Covid-19. Elas também foram obrigadas a passar os dias que antecederam a visita em um hotel, em quarentena.

Vários locais da cidade estão fechados e muitos jornalistas foram impedidos de participar dos eventos programados. As autoridades tomaram medidas para eliminar qualquer fonte potencial de constrangimento durante a estadia de Xi Jinping em Hong Kong.

Na semana passada, a Polícia de Segurança Nacional prendeu pelo menos nove pessoas. Uma dúzia de membros da Liga dos Social-Democratas (LSD), um dos últimos partidos políticos de oposição em Hong Kong, foram orientados pela polícia a não se manifestarem. Eles disseram à imprensa que tiveram suas casas revistadas.

“Uma nova era”

A cidade está repleta de cartazes proclamando uma nova era de "estabilidade, prosperidade e oportunidade". Todos os eventos, no entanto, foram fechados ao público, mas pequenos grupos se formaram na passagem do cortejo presidencial.

Liu, 43 anos, trabalha em um restaurante e tirou fotos com seu telefone de helicópteros que cruzavam o céu com bandeiras chinesas e de Hong Kong. "Nossa pátria cuidou bem de nós e estamos gratos", disse ele. "Estou esperançoso para os próximos 25 anos," completou.

Em um outro restaurante próximo, Cheng, 35, não planejou nada de especial para o dia. "Para mim e para alguns habitantes de Hong Kong, o maior impacto que sentimos é a visita de Xi causando enormes engarrafamentos em todos os lugares", disse.

(Com informações da AFP)

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