Yamandu Costa faz show virtual no festival 'Semente música viva'

Ricardo Ferreira
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Xodó de uma geração de boêmios e amantes da MPB, o Bar Semente deixou uma legião de órfãos quando fechou as portas, em 2017, mas ficou uma ideia. Após quase 20 anos de efervescência da cena da música independente carioca, a casa mantém a chama acesa e segue em atividade. Ainda que não exista mais como espaço físico, seguiu promovendo shows com seu “selo de qualidade”, primeiro no Blue Note, na Lagoa, depois no Dumont Art Bar, na Gávea. Agora, assina a produção do festival on-line “Semente música viva”, que reúne, a partir de hoje, apresentações inéditas, pré-gravadas, de nomes que passaram por lá e de outros artistas.

O violonista Yamandu Costa abre o festival com um show de músicas novas gravado em Lisboa, onde ele vive com a família desde dezembro de 2019. Amanhã, o também violonista Marcello Gonçalves e a clarinetista Anat Cohen apresentam repertório dedicado a Moacir Santos. Domingo é a vez de o cantor Marcos Sacramento e o violonista Zé Paulo Becker interpretarem afrosambas de Baden e Vinicius. Sexta-feira que vem (dia 9), o acordeonista gaúcho Bebê Kramer assume os trabalhos e, no sábado (10), quem se apresenta é João Donato. O grupo Semente Choro Jazz encerra a programação no domingo (11). Os shows serão transmitidos no YouTube (/yamandutube), gratuitamente, sempre às 20h30.

Cria da casa — assim como Teresa Cristina, Moyseis Marques, Nicolas Krassik e tantos outros — , Yamandu é o diretor musical e curador do festival, orgulhoso por retribuir a quem o acolheu no início da carreira. Foi aquele bar na Rua Evaristo da Veiga que serviu de palco (e de mesa) para o garoto de 21 anos recém-chegado de Porto Alegre no Rio em 2001, quando sua carreira de músico, hoje reconhecida internacionalmente, ainda engatinhava.

— O Zé Paulo Becker (músico que tinha noite fixa no Semente), me recebeu de todas as maneiras possíveis. Moramos um ano e meio juntos, somos irmãos. Ele chamava umas pessoas para tocar e o negócio ganhou corpo, foi pegando uma dinâmica, se transformou em algo emblemático — lembra o músico gaúcho, que chegou a ser sócio da casa na Lapa.

A receita do Semente deu certo e a casa caiu no gosto de um público ávido por música brasileira de qualidade. Além dos “calouros”, passaram por lá em canjas Chico Buarque, Ney Matogrosso, João Bosco, Ana Carolina e Leila Pinheiro, fora artistas internacionais do calibre de Norah Jones, Madeleine Perroux e Dave Matthews, entre outros.

— Foi um núcleo musical da nossa geração nesse Brasil que respirou no início dos anos 2000. Vivemos os anos dourados e nem nos demos conta disso. A quantidade de músico que se formou lá é incrível, e eu sou um deles— lembra.

Auto exílio

No show de hoje, gravado no estúdio que mantém em casa, Yamandu vai tocar canções inéditas que compôs no período de quarentena.

— Começo tocando violão de seis cordas, algo que não faço há muito tempo. Entre os temas novos, toco “Serelepe”, que fiz para os meus filhos que, na pandemia, ficam pulando o dia inteiro no sofá. A segunda é um choro chamado “Intrigante”. E a terceira, “Milongueira”, uma milonga brasileira. Depois tocos várias coisas diferentes — adianta.

De Algarve, região costeira de Portugal onde passa a Páscoa, o músico explica, por telefone, os motivos que o fizeram trocar o Rio de Janeiro por Lisboa.

— O momento político do Brasil empurrou, mas não foi definitivo. Nos últimos três ou quatro anos, fazia várias viagens para Europa por mês. Fora América, Japão... Estava muito cansado, não estava vendo as crianças crescerem. Estou experimentando uma vida mais tranquila — diz.

Filme e série

Foi também no seu estúdio em Lisboa que o músico produziu seu novo álbum, “Caminantes”, previsto para ser lançado no fim do mês e feito em parceria com o guitarrista português Luís Guerreiro e o bandoneonista argentino Martin Sued.

Yamandu também estrela “Dois tempos”, um documentário em vias de ser lançado no Brasil que mostra uma roadtrip na qual ele e o violonista argentino Lucio Yanel — um de seus gurus no instrumento — cortam a Argentina de motorhome. O longa foi selecionado para o festival “É Tudo Verdade”, que começa no dia 8.

— Minha relação com o Lúcio é de infância. Ele era amigo do meu pai, chegou no Brasil em 1983 direto na minha casa, foi o primeiro violão que eu pude ouvir. Temos uma ligação muito forte. No filme, a gente se desloca de Estrela, perto de Porto Alegre, até a província de Corrientes, no Nordeste argentino, onde tocamos em um concerto. No caminho, tocamos em uma festa popular pequena, foi lindo— conta Yamandu, que também está no ar no canal Music Box Brasil com a série “Histórias do violão”, na qual percorre o mundo em busca de curiosidades sobre o instrumento que o consagrou.

— A primeira temporada tem sete episódios, e a segunda tem uns cinco, já. Fizemos dois na Espanha, sobre a arte da lutieria. Agora quero ver se consigo ir a França falar sobre música cigana. E visitar o mundo flamenco, no Sul da Espanha. O último episódio foi aqui em Portugal mesmo, com Carminho, Antônio Zambujo, Guerreiro. Ficou muito lindo — conclui.