YouTube muda regras, mas ainda tem 200 vídeos sobre tratamento ineficaz contra Covid

·3 minuto de leitura
  • O YouTube tem ao menos 202 vídeos sobre tratamento ineficaz contra o coronavírus

  • Os conteúdos ferem as novas regras da plataforma, que passou a remover material sobre medicamentos sem comprovação científica para Covid-19

  • O presidente Jair Bolsonaro voltou a defender cloroquina e ivermectina no YouTube mesmo após a proibição

Desde abril, o YouTube passou a remover conteúdos com recomendações de medicamentos ineficazes contra o coronavírus, como cloroquina e ivermectina, porém ao menos 202 vídeos seguem disponíveis na plataforma, segundo levantamento publicado pelo jornal O Globo. Ao todo, eles somam mais de 20 milhões de visualizações e foram publicadas por canais de políticos, como o do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), órgãos governamentais, blogueiros e até por médicos.

Segundo o YouTube, a política é aplicada para conteúdos que já estavam no ar, de modo retroativo. Após a mudança de diretriz, a plataforma removeu cinco vídeos do canal de Bolsonaro, mas o perfil tem outras publicações antigas sobre o uso dos medicamentos e postou a live semanal da última quinta-feira, em que o chefe do Executivo fala que foi tratado com cloroquina e que recentemente usou ivermectina. Também ressalta que diversos médicos defendem esses tratamentos sem eficácia contra Covid-19.

O canal do Ministério da Saúde, por sua vez, tem ao menos dois vídeos no ar, publicados no ano passado, com a defesa do "tratamento precoce" (que não existe). Não há menções a medicamentos específicos. Em um deles, o ex-ministro Eduardo Pazuello afirma que o brasileiro que for diagnosticado "receba a medicação" e que o tratamento evita o agravamento, como a necessidade de UTI.

Em nota, a pasta, agora comandada por Marcelo Queiroga, informou que o conteúdo dos vídeos orienta e recomenda que, aos primeiros sinais da Covid-19, os pacientes procurem atendimento médico. "A medida é fundamental para evitar casos graves da doença. Em relação ao uso de medicamentos, cabe ao profissional de saúde receitar o tratamento adequado a cada paciente", complementou.

De acordo com Guilherme Felitti, responsável pelo levantamento produzido pela empresa de análise de dados Novelo Data, não há informações claras sobre quais canais recebem punições aplicadas pelo YouTube. A plataforma não divulga nem mesmo estatísticas sobre quais vídeos foram removidos considerando a nova regra sobre Covid-19.

"O YouTube age quando tem pressão, quando é questionado. É sempre uma reação passiva. Estão apagando vídeos no varejo, quando para resolver o problema deveriam fazer no atacado", avalia o pesquisador.

Em geral, canais com mais de três avisos de descumprimento de regras, os chamados "strikes", como o de Bolsonaro são excluídos pela plataforma. O YouTube, porém, anunciou que estabeleceu um "período de carência" para os casos envolvendo a recente atualização da política sobre Covid-19. Assim, vídeos postados antes da mudança ou até um mês depois da atualização podem ser removidos sem que essa ação gere um "strike" como penalidade.

Felitti critica o período de carência e avalia que canais, como o de Bolsonaro, que seguem compartilhando desinformação, recebem uma "carta branca" para ferir as regras. O pesquisador enfatiza também que a plataforma tem papel relevante na cadeia de desinformação sobre a pandemia, uma vez que permite a remuneração dos vídeos.

"Não tem plataforma que melhor remunere. Ela atinge milhões de pessoas e oferece uma forma de monetizar conteúdo. Isso atrai uma multidão de vários setores, inclusive quem promove desinformação", afirma.

Questionado pelo jornal O Globo sobre os critérios que adota para definir que vídeos serão analisados ou removidos, o YouTube informou, em nota, que todos os canais da plataforma precisam seguir suas políticas e que os vídeos são sinalizados para revisão humana por meio de um sistema automático, de denúncias de usuários e de seu programa de revisores.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos