YouTube pagou R$ 15 mi a canais bolsonaristas acusados de fake news

·3 minuto de leitura
O blogueiro bolsonarista Allan dos Santos (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
O blogueiro bolsonarista Allan dos Santos (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
  • Em um ano, 14 canais bolsonaristas produziram conteúdo suficiente para faturar R$ 15,4 milhões

  • Os canais são acusados pela Polícia Federal de propagar fake news

  • Tática é semelhante à de Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump e amigo da família Bolsonaro

Acusados pela Polícia Federal de propagar fake news, 14 canais de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) produziram conteúdo suficiente para faturar R$ 15,4 milhões em um ano, estima levantamento feito a pedido do portal UOL por uma consultoria especializada em pesquisas, mineração de dados e redes sociais.

Em 16 de agosto, o TSE (Superior Tribunal Eleitoral) mandou o YouTube suspender os repasses monetizados por essas páginas, que no período analisado produziram quase 24 mil vídeos que chegaram a 1,4 bilhão de visualizações.

Leia também:

A Consultoria Quaest apurou a produção de conteúdo dessas páginas e sua potencial monetização entre 15 de agosto de 2020 e 15 de agosto de 2021. Para chegar ao valor, a empresa precisou descobrir o alcance dessas 14 páginas: juntas, elas têm uma base de 9,5 milhões de seguidores.

A cada mil visualizações, o YouTube monetiza os canais que hospeda com valores que variam entre US$ 25 centavos [R$ 1,30 na cotação atual] e US$ 4,50 [R$ 23], segundo Felipe Nunes, diretor da Quaest e professor de ciências políticas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

"Quanto mais visto é um vídeo, maior sua chance de ser multiplicado pelo valor alto. Quanto menos visto, maior a chance de ser multiplicado pelo valor baixo", afirmou o especialista ao portal UOL.

O professor explica que esse 1,4 bilhão de visualizações poderia gerar em torno R$ 15,4 milhões em um ano desde que os 14 canais estivessem monetizando por todo esse tempo.

Um dos donos desses canais é Oswaldo Eustáquio, responsável pelo "Agora é Manchete com Oswaldo Eustáquio". Com audiência suficiente para monetizar R$ 241 mil no período, segundo o levantamento, ele afirmou ao portal UOL que "o Estado brasileiro, por meio do STF [Supremo Tribunal Federal], TRE [Tribunal Regional Eleitoral] e TSE, impediu por censura que eu recebesse esse valor" e que "durante esse período citado, meu canal esteve fora do ar".

Já Alberto Silva, dono de "O Giro de Notícias" e canal "Alberto Silva", disse à reportagem do UOL que seus canais estão "desmonetizados pelo YouTube há mais de 6 meses", embora suas páginas não "pertençam a nenhum tipo de grupo ou mídia paralela, grupos de WhatsApp ou coisa parecida".

O campeão de audiência é a "Folha Política", que com 2,5 milhões de inscritos produziu mais de 12 mil vídeos em um ano, alcançando 976 milhões de visualizações. Se monetizados por todo o período, seus vídeos podem ter rendido cerca de R$ 8,9 milhões, segundo o levantamento. O canal não se manifestou.

O YouTube não comentou os valores apurados pela consultoria. Em nota ao portal UOL, afirmou que que já suspendeu os repasses e que é seu "compromisso" colaborar com as autoridades brasileiras "para proteger a comunidade do YouTube de conteúdo nocivo". O site acatou a decisão do TSE em 26 de agosto. Desde então, os valores que deveriam ser transferidos aos donos dos canais são depositados em uma conta bancária atrelada à Justiça Eleitoral.

O canal "Emerson Teixeira" confirmou que o YouTube "cortou sim a monetização este mês", mas garante que, em 15 anos, recebeu US$ 3.800 (R$ 20 mil), "bem diferente dos US$ 32.500 dólares [R$ 168 mil] em um ano que vocês citam".

Dona do site "Direto aos Fatos", Camila Abdo negou que tivesse recebido o equivalente a R$ 225 mil em um ano, mas não revelou o quanto monetizou no período. Disse apenas ter recebido US$ 168 (R$ 880) no mês passado.

Enquanto o canal "Ravox" respondeu que não comentaria, os canais "Vlog do Lisboa", "Vlog do Lisboa Replay", "Terça Livre TV", "Universo", "Jornal da Cidade Online" e "Canal Universo Filial" não responderam ao portal UOL.

A PF defendeu ao TSE que a rede de apoiadores do presidente usou a internet para atacar as urnas eletrônicas utilizando estratégia semelhante à utilizada por partidários de Donald Trump nas eleições de 2016. Steve Bannon, o ex-estrategista de Trump, é próximo da família Bolsonaro e conselheiro da Cambridge Analytica, que comandou o site Breitbart News, conhecido por espalhar notícias falsas.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos