YouTubers ou educadores: quais os prós e contras dos vídeos feitos para estudantes na internet

Anita Efraim
·6 minuto de leitura
Asian Teenage girl wearing earphones sitting in front of lapttop, attending online video classroom with teacher in her bedroom
(Foto: Getty Images)

A pandemia do novo coronavírus mudou a forma como vestibulandos se preparam para as provas que farão para tentar entrar em universidades. É o caso de Cícero Gutenberg Barreto, de 19 anos, que quer cursar medicina e, para isso, fará o Enem.

Desde o início da pandemia, ele perdeu a possibilidade de utilizar as cabines de estudo, onde passa os dias. Então, começou a usar o YouTube por achar que as aulas são dinâmicas. “Uso pela possibilidade de acelerar o vídeo numa aula de um conteúdo do qual eu já tenho domínio e só estou revisando, e pela possibilidade de no caso de uma dúvida poder voltar o vídeo para parte que eu tive alguma dificuldade, com isso consigo melhorar meu aproveitamento.”

Entre os conteúdos consumidos por Cícero, a maioria é produzida por professores, mas ele também assiste a vídeos de youtubers, que não são necessariamente especializados no tema. “Professores têm mais domínio do conteúdo, porém, por não estarem na mesma posição do vestibulando, acabam não entendo as limitações ou dificuldades com relação a resolução rápida de questões”, explica.

“Muitos youtubers, apesar de não terem total domínio do conteúdo, muitas vezes ensinam muito melhor a aplicabilidade do conteúdo nas questões, sabem das dúvidas recorrentes dos alunos, por estarem no meio”, relata.

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Neissan Salimi, de 18 anos, também usa o YouTube como ferramenta para complementar os estudos para prestar Enem e tentar cursar jornalismo em uma universidade federal. “Eu escolho um canal de uma matéria e foco nesse, para me acostumar com o jeito do professor”, conta. Ele opta por youtubers sem formação acadêmica para pegar dicas de como fazer prova, em vez de conteúdo.

Por um lado, o conteúdo produzido na internet é democrático e acessível. Por outro, há a preocupação por parte de educadores por pessoas sem formação acadêmica adequada produzirem conteúdo.

Fernanda Martins, coordenadora da área de Desigualdades e Identidades do InternetLab e doutoranda em Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas, ressalta as duas faces do YouTube como plataforma de conteúdo.

“Se por um longo período, nós tínhamos a validação social de vozes ocorrendo a partir de diplomas e títulos, hoje podemos observar indivíduos que, a partir do carisma e da perfomance diante das câmeras, têm seus posicionamentos e o conteúdo de suas falas validados por aqueles que os assistem. No Youtube, por exemplo, essa validação ocorre por meio de inscrições em canais, alcance de visualizações, likes, comentários e do compartilhamento do conteúdo em outras plataformas”, aponta.

Isso, na visão de Fernanda, leva a uma inclusão maior das vozes ouvidas na hora do estudo dos alunos. “Esse é um dos pontos positivos, nós podemos abrir espaço para ouvir, inclusive, grupos sociais que foram historicamente silenciados, assim como assuntos que também foram menos visibilizados academicamente do que outros. Além disso, um dos critérios para que as pessoas acessem esse tipo de conteúdo é que possuam internet”, opina. “De uma forma simplista, podemos dizer que há duas possibilidades: de democratização de quem fala e é ouvido, bem como de uma democratização de quem acessa o conteúdo.”

Por outro lado, há também os riscos assumidos em procurar conteúdo disponibilizado na internet, sem que haja que passar por um crivo institucional. Uma das maiores preocupações da especialista é a disseminação de notícias falsas e mentiras sobre a história.

“Em um período marcado por uma ascensão conservadora do país, muita circulação de desinformação e fake news, há aqui a possibilidade também de abrir espaço para que se dispute o que é ou não entendido como ‘verdade’. O questionamento de eventos históricos como a ditatura militar brasileira, o nazismo ou quem foi Zumbi dos Palmares é também possível a partir dessa mesma dinâmica de construção de um lugar de expertise que não passa pelo crivo de pares - como ocorre na universidade. Além disso, é importante pensarmos que os influencers têm um alcance muito maior do que uma aula teria”, pondera.

Para Fernanda, o problema está menos na falta de formação acadêmica e mais na responsabilização sobre o conteúdo produzido. “Quando elas não têm essa formação, é importante que isso seja localizado em suas falas, que isso seja evidenciado. No entanto, aqueles que têm formação e aqueles que não têm devem ter a mesma responsabilidade de trazerem suas referências, de dizerem quais são as suas fontes de pesquisa”, opina.

Uma possível saída, segundo aponta a especialista, seria educar quem consome o conteúdo que está no YouTube. Os alunos precisam saber investigar para saber se o que é dito por um youtuber é, de fato, verifico. Para isso, seria preciso usar não só os vídeos, mas também os livros.

Fernanda acredita que é importante ressaltar que os vídeos no YouTube não podem, de forma nenhuma, substituir o ensino formal. Marcia Coutinho, professora e coordenadora de comunicação dos professores do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, o Cenpec, também vê a internet como forma de complementar a aprendizagem.

“Assim como na vida fora da internet, nós temos um problema com a qualidade da informação é que é passada. Às vezes você encontra professores com uma série de dificuldades com referência, com fontes. Mas, se a gente for pensar a educação na perspectiva de um desenvolvimento integral dos alunos e dos jovens, a gente pode entender que, dentro dessas grandes fontes de informação ou dentro dessas ofertas diferentes de aprendizagem que um território antes presencial oferecia, no virtual você tem muitas maneiras de oferecer aprendizagem”, avalia Marcia.

A professora acredita que, atualmente, os youtubers ocupam um papel importante. Na visão de Márcia, eles conseguem quebrar uma ideia sistematizada de situação, que é presente no dia a dia dos alunos nas escolas. Ela também ressalta que as novas ferramentas aumentaram o interesse dos estudantes em fazerem pesquisas por conta própria.

“Não acho que é uma concorrência, acho que pode ser usado como complemento. Mas acho que também é importante que os professores reconheçam que o trabalho deles é ajudar os alunos a construir uma visão crítica sobre esses conteúdos. Mas eu acho fantástico você ter a opção de você entrar no YouTube e descobrir como é o processo de uma mitose”, exemplifica.

Márcia Coutinho reforça que, de forma alguma, a escola perde sua função primordial e lembra que o professor precisa se adapta à nova realidade. “A escola não perde a sua função e o professor não perde a sua função. É o professor que vai ajudar a conectar aquela informação à realidade do aluno.

O professor não é mais a fonte exclusiva, muito pelo contrário. Muitas vezes na internet, o aluno acha um material muito mais atualizado do que aquele que o professor está apresentando. O professor enxergar isso como complemento é ótimo.”