Zé Trovão: Autor da trama de 1990, Marcos Caruso relembra novela, redescoberta após fuga de líder bolsonarista

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A busca pelo líder bolsonarista Marcos Antônio Pereira Gomes, conhecido como Zé Trovão, que a partir desta quinta-feira passou a envolver a Interpol, fez ressurgir na internet a curiosidade pela novela da extinta TV Manchete que dá nome ao youtuber foragido, "A história de Ana Raio e Zé Trovão" (1990). A trama, escrita por Marcos Caruso e Rita Buzzar (com colaboração de Jandira Martini) era protagonizada pelo casal de peões de rodeio Ingra Liberato e Almir Sater, ambos vindos do elenco da novela anterior e o maior sucesso da teledramaturgia da emissora carioca, "Pantanal" (1990). O nome do personagem de Sater é o mesmo adotado por Gomes, que tem mandado de prisão expedido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, por articular e incentivar atos antidemocráticos no último 7 de Setembro.

A busca pelo nome do líder bolsonarista e a descoberta pela Polícia Federal de seu paradeiro no México fez com que a novela, que foi reprisada pelo SBT em 2010, chegasse aos assuntos mais comentados do Twitter. O ator, diretor e dramaturgo Marcos Caruso relembrou o processo de escrita da novela e seu caráter inovador, uma vez que foi 100% gravada em externas, sem uma cena de estúdio.

A proposta do diretor Jayme Monjardim, que havia acabado de assinar "Pantanal", era que a trama se deslocasse por diferentes cidades do Brasil, já que o enredo seguia a competição entre as caravanas de rodeio de Ana Raio e de Dolores Estrada (Tamara Taxman). A cada 24 capítulos, todo o elenco principal, equipe, equipamentos, cenários e figurinos eram transportados para outra cidade, por vezes em estados diferentes.

Caruso se recorda do dia em que Monjardim ligou e pediu para que ele fosse imeditamente de São Paulo para o Rio, para encontrá-lo ("Era um 7 de Setembro, veja só", diverte-se o ator). Ao chegar ao hotel em que o diretor estava hospedado, ele jogou duas celas no chão do quarto, uma preta e outra branca, dizendo: "Ana Raio" e "Zé Trovão". Quando o ator perguntou o que era aquilo, Monjardim contou: "Essa é a novela que você vai escrever para substituir 'Pantanal'".

— A ideia original do Monjardim era fazer "Amazônia" na sequência de "Pantanal", mas ao visitar a região ele descobriu que, como a floresta era muito fechada, com árvores de copa alta, não funcionaria visualmente como ele queria. Por isso ela ficou para depois — recorda Caruso. — Ele havia acabado de gravar cenas para "Pantanal" em uma região de rodeio e teve a ideia de uma nova trama. Achei aquilo uma loucura, escrever uma novela para substituir o maior sucesso da teledramaturgia da emissora. Ele indicou a Rita Buzzar para dividir a autoria comigo e acabou me convecendo.

Caruso e Monjardim estrearam como teledramaturgo e diretor em "Braço de Ferro", exibida pela Band em 1983. O ator também integrou o elenco de "Pantanal" como o peão Tião, na primeira fase da novela. Para ter pouco mais de 20 capítulos de frente quando a novela anterior terminou, em dezembro de 1990, Caruso e Rita precisaram escrever a sinopse, os primeiros capítulos, escalar o elenco e iniciar as gravações em dois meses e meio. Como a novela era itinerante, Caruso precisava viajar para as locações futuras enquanto a autora escrevia do Rio.

— Eu e Monjardim ficávamos procurando locações voando num bimotor, depois eu fazia reuniões com as secretarias de Cultura e Turismo das cidades escolhidas para pegar as histórias de cada região. E isso era na era pré-digital, eu escrevia as escaletas dos capítulos a lápis no colo durante os voos. Costumo dizer que escrevi a novela literalmente nas coxas — brinca o ator.

Além de prever toda a logística para as gravações apenas em externas, com uma frente de capítulos que permitisse o deslocamento de elenco, equipe e equipamento (inclusive os caminhões que integravam o cenário), Caruso também acumulou a função de ator, como um locutor de rodeios que também fazia às vezes de narrador da trama.

— Foi algo jamais repetido na TV, uma proposta que, pela complexidade, hoje seria feita com ao menos um ano de antecedência. E fizemos na raça, rodando do Rio Grande do Sul até a Bahia — diz Caruso, que não se lembra do uso do nome Zé Trovão por alguém antes do youtuber foragido. — Até hoje mulheres me contam que se chamam Ana Raio ou pais dizem que botaram o nome na filha por causa da novela. Mas Zé Trovão só vi agora mesmo. Em meio a tantas coisas preocupantes, isso serviu ao menos para reavivar a memória da novela para o público.

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