De Zeca Pagodinho a Deborah Secco, cariocas escrevem a Papai Noel seus desejos para o Rio

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Nas cartinhas ao Papai Noel, nem só os singelos pedidos de brinquedos fazem do Natal um tempo de renovação da esperança. As mensagens das crianças costumam ser atravessadas por preocupações que não deviam ser da infância, como desejos de fim da violência e expectativas de emprego para a família. A convite do GLOBO, personalidades cariocas entraram nesse espírito. E fizeram de suas palavras escritas ao Bom Velhinho um meio de expressar suas aspirações para o futuro do país e, principalmente, da cidade do Rio de Janeiro, com desafios tão complexos a serem enfrentados.

Num segundo ano em que a pandemia do coronavírus deixou o fluxo da vida ainda mais imprevisível, os votos por saúde se sobressaíram. Sentinelas do samba — que se despediu de tantos bambas vitimados pela Covid-19 —, a baluarte Tia Surica e o cantor Zeca Pagodinho reforçaram seus pedidos a Noel para que o mundo se liberte das dores causadas pela doença.

— Tivemos um ano muito difícil. Perdi alguns amigos para o vírus — lembrou Zeca, que chegou a ficar internado com Covid durante cinco dias, em agosto passado, e que ressaltou a importância de incentivar a campanha de vacinação contra o coronavírus.

Já o sonho de um pós-pandemia de mais encontros e alegria apareceu nos anseios dos empresário Roberto Medina, que prepara uma nova edição do Rock in Rio para 2022.

— Pedi ao Papai Noel que o turismo se intensifique e que nossas festas voltem a acontecer, com mais empregos criados e uma economia forte e saudável — conta Medina.

Também se impuseram os clamores por mais esforços para reduzir a violência e para se alcançar soluções a outras mazelas sociais. Essas foram algumas das expectativas reveladas pela economista e advogada Elena Landau e pelo coordenador executivo do AfroReggae, William Reis, que colocou o bem-estar dos jovens das favelas no foco de suas atenções.

O empreendedor social Davi Gomes, por sua vez, pediu que as crianças sejam protegidas das balas perdidas. Cria da comunidade Vila Vintém, na Zona Oeste do Rio, ele foi selecionado como um dos embaixadores da Brazil Conference, encontro com líderes e representantes da diversidade do Brasil nos Estados Unidos, em abril deste ano.

“Que a juventude siga promovendo mudanças concretas através de suas atitudes em prol do coletivo”, completou o jovem ativista.

A cantora Lexa também conclamou a mobilização da sociedade e convocou seus fãs a fazerem sua parte. Acostumados a arregaçar as mangas para promover mudanças, o estilista e ativista LGBTQIAP+ Almir França pediu uma escola de moda sustentável para transexuais, enquanto Aristóteles Queiroz, responsável pela logística de distribuição de insumos, medicamentos e vacinas contra a Covid-19 na Secretaria municipal de Saúde do Rio, manifestou o desejo de um veículo para levar doações a pessoas em situação de rua.

— Há 20 anos eu saio, na noite do dia 24, para fazer ações sociais — diz ele.

Já o medalhista paralímpico Wallace Santos, além de sonhar com sua casa própria, quer um ano de ainda mais conquistas esportivas. Por fim, a atriz Deborah Secco enumerou o que é necessário para encarar os caminhos a percorrer em 2022: ela pediu mais sabedoria, lucidez e serenidade a todos.

Papai Noel, tivemos um ano, mais uma vez, muito difícil para todos nós, brasileiros. Hoje, eu te peço saúde para o mundo. Passei um ano e dois meses em isolamento, em Xerém. Fui internado com Covid-19 e perdi amigos para o vírus. E, por isso, neste ano que está prestes a acabar, achei importante incentivar a campanha de vacinação contra a doença.

Não peço nada material para mim, Papai Noel. Eu sou grato pelo que tenho, pela minha família, pelos amigos ao meu redor e pelo trabalho. E Noel, agradeço também por poder levar à frente o Instituto Zeca Pagodinho, que tem 150 alunos se profissionalizando na música, em informática e em outros cursos. Isso me dá uma grande alegria. Obrigado, Papai Noel, por esse presente.

Por fim, desejo que as crianças fiquem fora das ruas. Que o povo não tenha mais fome, e sim, que tenha comida na mesa todos os dias. Que os brasileiros tenham acesso à educação . E Papai Noel, o senhor poderia nos dar de presente, para o próximo e todos os anos que virão, um mundo sem violência e com mais alegria.

Papai Noel, neste Natal, a minha lista de pedidos é para a cidade do Rio. Após um período de tantas incertezas e dificuldades, espero que nossas festas voltem a encher as ruas de alegria, que o turismo se intensifique, que mais empregos sejam criados, que a economia volte a crescer forte e saudável e que 2022 seja o ano dos reencontros, porque a vida acontece ao vivo.

Na minha casa, a noite de Natal já é tradição de estarmos todos juntos, relembrando o ano que acaba, refletindo sobre o que passou e aprendendo com as experiências que cada um teve. Claro, também aproveitamos para agradecer pela vida, por ela ter sido tão generosa com esta família, e aproveitar a ceia com peru, bacalhau e tender com molho.

Claro que a hora mais especial da noite é quando o senhor chega, e todos os netos e a criançada ficam felizes neste encontro tão esperado por eles e cheio de magia e encanto.

Além disso, este ano eu decidi me tornar Papai Noel também: estamos ajudando a que mais famílias possam, de alguma forma, lembrar da data , colaborando e pedindo doações para o projeto Natal Sem Fome.

Querido Papai Noel, espero que o senhor esteja bem e se cuidando bastante. Já tomou a sua dose de reforço da vacina contra a Covid-19? Ela é muito importante!

Neste ano, eu não vou pedir muita coisa. Eu quero mais agradecer do que pedir. Agradeço pela benção de estar viva, com saúde e perto das pessoas que eu amo.

Mas se pudesse fazer um pedido, eu desejaria que senhor nos trouxesse mais sabedoria para 2022. É algo que anda meio em falta por aqui, sabe, Papai Noel?! Que nós tenhamos luz em nossas mentes para poder olhar o outro com mais amor. Esse seria um lindo presente de Natal, tenho certeza disso.

O próximo ano, que se inicia daqui a alguns dias, promete ser turbulento. E quero que passemos por ele com a serenidade e lucidez necessárias para vencer todo o mal.

Com esperança, Deborah Secco.

O meu pedido para você, Papai Noel, é que nos dê paz, muita saúde e que ponha um fim nessa pandemia que vem matando muitos amigos meus e pessoas em todo o mundo. É tudo tão triste, né?

E também quero pedir que a minha escola de samba faça um bom carnaval, que a Portela venha linda em 2022 e leve o título mais uma vez. Papai Noel, nós estamos com um bom enredo, com um bom samba e com alegorias e fantasias lindas. A gente merece esse 23º título, não é?

Mas eu quero dizer para o senhor, Bom Velhinho, que este ano não vou celebrar o Natal lá na minha casa. Estou sem ânimo para fazer festa no meu cafofo. O meu coração está partido diante de tantas perdas recentes, como a do meu grande amigo Mestre Monarco, que se foi este mês.

Então, se o senhor resolver aparecer, não estranhe a ausência da festa. Mas mesmo assim será muito bem-vindo à minha casa.

Mas, depois da pandemia, lá em 2023, se Deus quiser, eu espero que o senhor venha celebrar com a gente e ficar até a festa de réveillon, que é o fervo da Tia Surica.

O Rio é tão cheio de carências que é difícil escrever numa única cartinha, Papai Noel, tudo que gostaria para a cidade. Poderia fazer uma lista enorme (de problemas), como as calçadas de pedras portuguesas esburacadas e a falta de saneamento nos locais mais vulneráveis. Mas vou me concentrar no desejo de diminuição da violência, de um fim da guerra estúpida às drogas que só gera violência policial e mortes. Por um pensamento mais moderno, de legalização do uso medicinal da Cannabis.

Depois, que possamos ter um país melhor. Onde moro, na Zona Sul do Rio, vejo o nível de pobreza pelas ruas, de miséria, de pessoas pedindo comida, famílias abandonadas... Imagina nas áreas menos privilegiadas. Que essas pessoas sem perspectivas, sem emprego, possam deixar as ruas. Não queria nunca mais ver uma criança pedindo dinheiro nos sinais. Quero vê-las na escola!

Também gostaria de ver o carioca retornar com sua característica de alegria, solidariedade, cidadania, educação. Vemos hoje um carioca mal-humorado, sem paciência, e isso não faz parte do Rio. Então, seria a volta da alegria, da gentileza, da cordialidade e da limpeza.

Ah, Papai Noel... 2021 foi um ano bem atípico e especial. Fui campeão paralímpico, terminei a minha faculdade de educação física, conquistei o recorde mundial e terminei o ano com saúde. Mas, mesmo com todos os altos e baixos, agradeço a Deus pelas bênçãos recebidas. Agradeço à minha família, a todos que torceram e que torcem por minha trajetória. A palavra que me define, com certeza, é “gratidão”!

Eu era uma criança bem arteira, o senhor lembra? Eu sempre acreditei que Papai Noel viria até a minha casa no Natal. Os meus pais nunca deixaram que eu perdesse o encanto de ver o Bom Velhinho deixando o presente embaixo da árvore. E nada mudou. Continuo acreditando até hoje na magia da data.

Tanto que quero te pedir alguns presentes para o ano que se aproxima: quero ter meu apartamento e continuar sendo campeão nas competições que eu for participar.

Desejo a todos, seja do Rio de Janeiro, de outra cidade ou estado brasileiro ou até do mundo, um feliz Natal. E gostaria de dizer: nunca percam a esperança de dias melhores, não deixem de acreditar. Feliz 2022!

Querido Bom Velhinho, é com muita esperança de dias melhores e bastante amor dentro do coração que venho por meio desta cartinha, primeiramente, agradecer pela vida. Obrigado por estar com muita saúde em meio a tantas incertezas no que se refere ao maior patrimônio do ser humano, que é a nossa vida.

O meu pedido principal é que não tenha mais fome nas comunidades do Rio de Janeiro e que os moradores dessas regiões tenham mais dignidade. Para o projeto SOS Vila Vintém , no qual eu estou na liderança, peço que o senhor me ajude a impactar muito mais famílias, dando segurança alimentar neste momento difícil e de muita batalha.

Que Deus proteja nossas crianças de balas perdidas e que a juventude siga promovendo mudanças concretas através de suas atitudes em prol do coletivo. O ensino público de qualidade e decente deve ser direito de todos.

Não menos importante, meu presente pessoal é conseguir ser aprovado na prova prática da autoescola, estar com minha carteira de motorista em mãos e ter oportunidade de comprar um carro. Será que cabe na sacola?

Querido Papai Noel, eu peço mais para os outros do que para mim. Sou uma pessoa abençoada, que só deseja saúde para mim e minha família. Temos comida na mesa, casa para morar, acesso a tudo que precisamos e uma vida tranquila.

Meu pedido é pelas crianças de favela que todos os dias têm seus sonhos interrompidos numa cidade que ainda nega o básico a elas. Jovens que estão nos piores índices de desigualdade da cidade, que morrem nas trocas de tiro, que não têm acesso a uma educação boa, à saúde pública e ao esporte. Eu quero que as crianças sejam olhadas com mais humanidade e menos preconceito.

Que o senhor faça do AfroReggae uma ferramenta de verdadeira transformação na sociedade. Que o projeto AfroGames continue inserindo jovens de favelas em um dos mercados que não para de crescer no mundo, e que a gente leve entretenimento através dos shows nas periferias. E que em 2022, de fato, a gente consiga ampliar ainda mais nosso trabalho sociocultural em Vigário Geral e em outras favelas, como Parada de Lucas e Cantagalo.

Papai Noel, neste Natal, nos dê paz, justiça, igualdade e liberdade como presentes.

Eu amo o Natal, Papai Noel. Acho até que o senhor já deve saber disso. Sou meio suspeita para falar sobre essa época tão linda, tamanho é o meu encanto por ela. Essa é uma data familiar. E nada me representa mais do que a minha família. Para mim, o Natal é sobre isso. Entrar em contato com a pureza da nossa matriz. Mas não podemos jamais nos esquecer de que não é uma data apenas sobre o “eu”, mas sobre o “nós”.

É tempo de retribuir, de exercitar a nossa empatia e generosidade mais do que nunca. Até por isso, eu peço que todos os meus fãs não me deem presentes, busquem uma instituição de caridade na qual eles acreditem e confiem, para fazer a sua parte para o próximo. Por isso, também não quero pedir presentes materiais para o senhor, Papai Noel.

Eu quero agradecer por tudo que eu tenho. Eu carrego uma memória afetiva muito forte dos amigos ocultos organizados até hoje na casa da minha mãe, do cheirinho de comida preparada por ela no dia 24, da ceia completa na mesa... E quanto mais a vida passa, mais eu dou valor a esses momentos que foram e seguem sendo tão importantes, às minhas memórias afetivas e às minhas raízes.

Pensando no que desejar para 2022, me veio a inocência de uma criança esperando o Bom Velhinho trazendo o seu presente na noite de Natal. Essa certeza ingênua da infância me faz pensar o quanto desejar algo pode ser positivo. Por isso, Papai Noel, peço que o senhor me ajude a concretizar o sonho de ter uma escola de moda sustentável para minhas alunas transexuais. Quero muito esse presente!

Eu acho tão importante essa iniciativa. Um local voltado particularmente para a formação profissional dessa minoria da população que vive, muitas vezes, em situações vulneráveis. Eu quero, Papai Noel, ensiná-las a modelagem e a costura a partir da desmontagem de roupas e retalhos. É pensar num novo negócio a partir de resíduos. Incrível, né? E acho que o senhor pode me ajudar com esse presente.

Por isso, quando o relógio marcar meia-noite no dia 24 de dezembro, eu colocarei a minha bota na janela de casa. Não ficarei triste se o senhor deixar alguns retalhos e roupas usadas, mas desejo encontrar por lá uma bolsa de sonhos feita por elas.

Eu me considero bem próximo do senhor, Papai Noel. Há cerca de duas décadas, visto sua roupa, em toda época de Natal, e pego o seu trenó emprestado para fazer o bem ao próximo. Por isso, para 2022, eu desejo paz, saúde, harmonia e que todos tenham um lar para morar com dignidade. Que as pessoas tenham o direito de estudar. Que todos sejam respeitados pelas suas diferenças, que possam ser felizes.

E se for possível, quero ganhar de presente uma Kombi para transportar doações aos moradores em situação de rua para os que presto assistência. Que no novo ano a gente consiga realizar os nossos sonhos e colocar as metas em prática.

O ano que termina daqui a alguns dias foi de muito trabalho mental e físico para abastecer as unidades de saúde do Rio com vacinas contra a Covid-19, insumos e medicamentos. Um trabalho que me orgulha muito de ter feito parte, mesmo que seja um pedacinho de todo o processo. Acho que trabalhei mais do que o senhor, Papai Noel. Andei mais do que as suas renas na noite de 24 de dezembro.

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