Zelensky critica posição de Bolsonaro na guerra: 'Neutralidade permitiu a fascistas engolir metade da Europa na 2ª Guerra'

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, criticou a postura de neutralidade de Jair Bolsonaro na guerra na Ucrânia. Em entrevista exclusiva à repórter Raquel Krähenbühl, veiculada na noite desta terça-feira no Jornal Nacional, ele deu detalhes da conversa que manteve por telefone com o presidente do Brasil um dia antes. Foi a primeira vez que o líder ucraniano falou com um veículo da América Latina desde o início do conflito.

Entrevista: ‘O público europeu está cansado da guerra na Ucrânia’, diz estudioso das relações entre Rússia e Ocidente

Nas salas de aula: Com doutrinação nas escolas, Putin tenta conquistar nova geração de apoiadores

— Eu não apoio a posição de neutralidade dele — afirmou, em referência a Bolsonaro. — Não acredito que alguém possa se manter neutro quando há uma guerra no mundo.

Para Zelensky, Bolsonaro age como os líderes ocidentais que ficaram em cima do muro no início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e acabaram, na opinião do presidente ucraniano, por facilitar o avanço dos nazistas sobre o continente.

— Na Segunda Guerra Mundial foi assim: muitos líderes ficaram neutros num primeiro momento. Isso permitiu que os fascistas engolissem metade da Europa e se expandissem mais e mais, capturando toda a Europa — declarou. — Ninguém pode ficar no meio do caminho.

Guerra dos grãos: Com trigo da Ucrânia parado nos silos, EUA acusam Rússia de impedir exportações e usar alimento como arma

De acordo com o presidente ucraniano, não há lugar para mediadores no conflito russo-ucraniano, porque “a guerra não é entre a Ucrânia e a Rússia", a guerra é "da Rússia contra o povo ucraniano”, logo, nunca chegarão “a um meio-termo”, afirmou.

— Um país não declarou guerra contra o outro. Um país capturou uma parte do nosso território há oito anos — disse Zelensky, referindo-se à anexação da Crimeia pela Rússia. — Naquela época, havia muitas pessoas que queriam ser mediadoras e permaneceram neutras. Por causa disso, permitiram, desde 2014, que a Rússia fizesse essa segunda invasão. Esse é o significado de “neutralidade”.

Zelensky relatou que, no telefonema, disse a Bolsonaro que “precisa de uma posição do Brasil” e conta com o povo brasileiro, que descreveu como formado por “pessoas maravilhosas” que “apoiam os mesmos valores” dos ucranianos, “independentemente da língua que falamos”. Segundo ele, apesar de o presidente brasileiro dizer que o Brasil apoia a soberania e a integridade territorial da Ucrânia e “realmente compreende a dor do que está acontecendo com vocês”, afirmou que manteria a neutralidade.

— Eu disse: ‘Queremos o apoio do Brasil. Se amanhã alguém atacar vocês, não ficaremos neutros, independentemente do histórico da nossa relação com um país que viesse a violar a sua soberania. Se alguém capturar a sua terra, matar o seu povo, estuprar as suas mulheres, torturar as suas crianças, como poderia dizer que sou neutro? Eu não tenho esse direito’ — afirmou Zelensky. — Relações comerciais são secundárias. Isso se resolve. Mas é preciso haver respeito pelo povo, de um país pelo outro, de um líder pelo outro.

Bolsonaro e Zelensky conversaram por telefone na manhã de segunda-feira. No mesmo dia, em publicação no Twitter, o presidente ucraniano disse que falou sobre "a situação no front" e discutiu “a importância de retomar as exportações de grãos para evitar uma crise alimentar global provocada pela Rússia”. Ele também apelou “a todos os parceiros para que se juntem às sanções contra o agressor".

O presidente brasileiro, por sua vez, não deu detalhes da ligação. Em conversa com apoiadores nesta terça-feira, limitou-se a dizer que não comentaria o assunto.

Desde o início da guerra, que eclodiu em 24 de fevereiro, Bolsonaro tem defendido uma posição de "neutralidade". Nas últimas semanas, o presidente também passou a repetir que as sanções impostas contra a Rússia pelos EUA e seus aliados europeus não funcionaram.

Tradicionalmente, o Brasil adere apenas a sanções impostas pela ONU. Mas como a Rússia é membro permanente do Conselho de Segurança, tem o poder de barrar qualquer tentativa de sancioná-la pela invasão do país vizinho.

Em fevereiro, às vésperas da invasão russa, Bolsonaro viajou a Moscou para participar de um encontro bilateral com o presidente Vladimir Putin, apesar de todas as advertências de que poderia criar desgaste com os EUA e a União Europeia (UE).

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos