Zerar emissões de gases de efeito estufa até 2050 é 'tarde demais' para evitar desastre global, diz relatório

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Zerar emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2050 é “tarde demais” para evitar um desastre global e não será suficiente para atingir a meta de limitar o aquecimento global a 1,5ºC até o final do século, estabelecida no Acordo de Paris. O alerta é feito por cientistas do Conselho Consultivo de Crise Climática (CCAG, na sigla em inglês), em relatório divulgado na quarta-feira.

Com base nas descobertas publicadas recentemente pelo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), os cientistas do CCAG afirmam que nunca tivemos tantas evidências científicas para demonstrar que estamos "no meio de uma emergência climática global".

Segundo o novo relatório, mesmo que os países atinjam zero emissões de gases de efeito estufa em meados do século — meta definida pela maioria das nações que participam do acordo, incluindo o Brasil, como anunciado pelo presidente Jair Bolsonaro na Cúpula do Clima — isso não traz impactos para os mesmos gases que já estão na atmosfera, com concentrações de gás carbônico de até 540 partes por milhão.

Os pesquisadores destacam que os países devem se concentrar em metas de emissões negativas, focando em começar a remover rapidamente os gases de efeito estufa da atmosfera em grande escala e a reparar os sistemas climáticos "gravemente danificados".

— Quando se fala na neutralidade de carbono, estamos pensando que vamos passar a sequestrar a mesma quantidade de carbono que emitirmos. Isso é importante porque algumas emissões de CO2 não vamos conseguir evitar, então temos que contrabalançar. Mas e tudo que já foi emitido? É preciso trabalhar na redução da concentração atmosférica de CO2, além de outros gases de efeito estufa — afirma Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília (UnB) e membro do CCAG.

“Alcançar emissões zero até 2050 não é mais suficiente para garantir um futuro seguro para a humanidade. Devemos revisar as metas globais e nos comprometermos com estratégias negativas de emissão de gases de efeito estufa urgentemente”, afirma David King, ex-conselheiro científico do governo britânico e líder do CCAG, em nota divulgada pela Agência Bori.

Bustamante afirma que o setor com mais potencial de ajudar a sequestrar carbono rapidamente é o de ecossistemas e de agricultura.

— Buscar formas de recuperar os ecossistemas é uma opção importante pensando em países tropicais, além da conservação. No caso da agricultura, trabalhar sistemas que aumentem o sequestro de carbono do solo e diminuam as emissões — afirma a pesquisadora, e acrescenta: — O Brasil poderia ter papel importante, como já representou há alguns anos atrás. Mas não se continuarmos considerando que os mecanismos de conservação ambiental são um entrave ao desenvolvimento.

Bustamante destaca que é preciso um esforço para limitar o aquecimento a 1,5ºC, mas lembra que mesmo esse aquecimento também terá consequências.

— Já temos impactos hoje, com aumento de quase 1,1ºC. Muitos eventos extremos recentes já são apontados como causados pelo impacto da atividade humana. Quando observamos o relatório do IPCC, se passar para 1,5ºC e depois 2ºC, vai aumentando a frequência desses eventos. Então precisamos nos preparar para responder a essas consequências — afirma.

Ela destaca que a conservação de ecossistemas contribui para a adaptação aos impactos da mudança do clima. A vegetação dentro das cidades, por exemplo, é importante para reduzir o calor, cita a pesquisadora.

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