Zezé Motta supera os fantasmas da idade e vira garota-propaganda disputada aos 77 anos: ‘Estou bombando depois de idosa’

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A risada escancarada de Zezé Motta em quase todas as fotos deste ensaio não é mero jogo de cena. Aos 77 anos, a atriz e cantora, dona de uma carreira estabelecida há mais de cinco décadas, tem mesmo uma personalidade radiante e não para quieta. Imunizada com as duas doses da vacina contra a Covid-19, ela só tem saído do seu apartamento, no Leme — o mesmo onde Clarice Lispector (1920-1977) morou nos seus últimos anos de vida —, para trabalhar. E é assim que ela gosta. Na TV, estará na série inédita “Fim” e na próxima temporada de “Arcanjo renegado”. Antes, fará uma aparição como apresentadora do especial “Falas da vida”, que será exibido pela Globo em 1º de outubro, no Dia Internacional dos Direitos da Pessoa Idosa.

Zezé atua ainda no filme “Doutor Gama”, disponível no Globoplay, e estará em outras duas produções para o cinema, “Do outro lado da ponte” e “As bisnetas”. Do ano passado pra cá, a atriz estrelou mais de 30 campanhas publicitárias — algo inédito em sua trajetória profissional. Fez propaganda para grandes marcas como Natura, Avon, Nívea e Lojas Americanas.

A artista ainda reestreou o show “Coração vagabundo — Zezé Motta canta Caetano” e planeja voltar com as apresentações de seu mais recente álbum, “O samba mandou me chamar”. O que mais ela quer? Com tantos compromissos, Zezé avisa, entre risadas, durante a longa entrevista que deu por telefone, para a Canal Extra:

— Estou querendo férias ao vento e um grande amor. Eu não gosto de viver sozinha. Eu sou movida à paixão.

Leia a conversa a seguir:

Como será sua participação no “Falas da vida”?

Faço o papel de intermediadora entre as cinco idosas convidadas. Foi bem legal, uma troca incrível. Elas são todas grandes mulheres. O que me confirmou que ser idoso hoje em dia é diferente.

Como assim?

O velho era tratado como um trapo quando eu era pequena. Hoje, se você envelhecer com saúde, o que é fundamental em qualquer idade, você não se sente velho, não fica deprimido. E pode seguir produzindo.

Como você lida com o envelhecimento?

Antes tinha receio por causa dessa imagem que fazia sobre a velhice. Imaginava que daria trabalho para os filhos, que teria problemas de saúde e ficaria dependente. E também temia não ter mais espaço no mercado de trabalho. Mas nada disso aconteceu comigo. Hoje eu não paro! (risos).

Você está atravessando essa pandemia realizando vários trabalhos...

Só saio da minhan casa para trabalhar, já tomei as duas doses da vacina. No início, teve a fase da calmaria. Aproveitei para ler todos os livros que estavam na fila. Depois, voltei a trabalhar. Apresentei o show “Coração vagabundo — Zezé Motta canta Caetano”, que é intimista. Fiz duas lives. E quero voltar com “O samba mandou me chamar”, com banda. Parei por causa da pandemia.

Você também tem feito muita publicidade...

Foi o que me salvou nesta temporada. Quando era jovem, só me lembro de ter feito uma propaganda de cerveja e outra, de café, com a Ruth de Souza (1921-2019). Estou bombando depois de idosa. Fiz as capas da “Vogue” e da “Raça”.

Gosta de ser fotografada?

Tenho um pouco de preguiça (risos). Na vida real não passo pó nem batom. Estou sempre de cara lavada. Mas com o cabelo não posso esculachar porque as pessoas me cobram.

Você declarou em entrevistas que passou por crises na virada dos 30, dos 40, dos 50, e dos 60 anos. O que mudou agora após os 70?

As crises foram baseadas nessa questão cultural, nesse discurso, na angústia de que você perde espaço ao envelhecer. Mas esses fantasmas se foram.

Como mantém a sua vitalidade?

Sempre tive amigos de todas as idades. Sem falar que venho trabalhando muito. Estou querendo férias ao vento e um grande amor. Eu sou movida à paixão. E não gosto de viver sozinha. Quando não estou apaixonada, eu invento (risos).

Já viveu muitos amores ao longo da vida?

Eu não posso reclamar de vida, não... Tive grandes amores e fui muito amada.

Pensa em se casar novamente?

Já me casei cinco vezes. Está bom assim.

O filme “Xica da Silva” a transformou em símbolo sexual. Como foi essa experiência?

Passei por um período bem desconfortável. Foi complicado lidar com a questão de ser símbolo sexual. Na época, estava solteira. Ouvia dos homens: “Não acredito que estou transando com a Xica da Silva!”. Isso é uma ducha de água fria, né?

Com o sucesso veio um certo mal-estar...

Teve uma fase em que Xica me incomodou um pouco. Queria emplacar o meu nome na mídia e só me chamavam pelo nome da personagem. Mas ela é minha fada madrinha, não posso reclamar. Eu já tinha oito anos de carreira, mas não era uma atriz popular antes do filme.

Como “Xica da Silva” mudou a sua vida?

Eu conhecia três países antes do filme, o México, o Peru, e os Estados Unidos. Por conta da divulgação do filme, conheci mais 16.

Como construiu sua autoestima? Você já disse que não se achava bonita...

A beleza no Brasil era importada. Para ser bonito, tinha que ser loura e ter olhos claros. As pessoas me diziam que o negro era feio e eu acreditava. Ao ser anunciada como a Xica, abri uma revista e li: “Atriz feia, mas exuberante é escolhida para o filme”. E tinha uma foto minha belíssima (risos). Eu só fui me convencer de que não era feia quando fui aos Estados Unidos, em 1977, e olhei para aqueles homens e aquelas mulheres altivos de lá.

Como o racismo já a afetou?

De várias formas. Teve uma vez em que fui visitar o André Valle (1945-2008) e o porteiro me apontou a porta dos fundos. Já fui fotogradada para um outdoor que foi recusado porque os clientes de classe média não iriam comprar um produto aunciado por uma negra. Morei três anos com um rapaz e a família dele não me aceitava. Isso interferiu muito na nossa relação quando ele quis casar e ter filhos comigo.

Em 1984, quando você fez par com o ator Marcos Paulo na novela “Corpo a corpo”, boa parte do público rejeitou o casal...

Foi uma experiência horrível, uma loucura!

Você disse que já teve experiência com homens de todas as cores...

Tive namorados de todas as cores. Eu vivi com um rapaz branco por cinco anos. Com seis meses de namoro, fui conhecer a família dele. A avó dele, já bem idosa, com uns 90 anos, fez um discurso agradecendo por eu estar ali.

Texto: Zean Bravo - @zean.bravo

Fotos: Thiago Bruno - @euthiagobruno

Produção: Vinicius Belo - @viniciusbelo

Styling: Salisa Barbosa - @salisabarbosa

Produção de moda: Nayla Leme - @naylemme

Assistente de styling: Isabella Rabello - @isarabello

Beleza: Jana Marques - @ajanamarques

Assistente de beleza: Andreza Faria - @andrezafaria.art

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