Zoom vai oferecer criptografia de ponta a ponta, mas você terá que pagar por ela

Rafael Arbulu

Um dos pedidos mais insistentes dos usuários do Zoom está prestes a ser atendido, mas não sem antes fazer com que você pague por isso: segundo entrevista do consultor de segurança do app de videochamadas, o ex-Facebook Alex Stamos, o Zoom já desenvolve o recurso de criptografia de ponta a ponta (E2E), mas ele será exclusivo para assinantes, que pagam pela plataforma.

Falando com a agência de notícias Reuters, Stamos não detalhou os planos, mas disse que eles podem mudar. O executivo, que se juntou ao Zoom como seu principal consultor tecnológico em abril de 2020, ainda disse que entidades sem fins lucrativos ou “outras partes interessadas” (dissidentes políticos e refugiados, por exemplo) poderiam ser contempladas com recursos avançados de proteção em suas videochamadas. Stamos ainda disse que “uma combinação de fatores tecnológicos, de segurança e de negócios foram posicionados no plano”.

App de videochamadas Zoom já está desenvolvendo criptografia de ponta a ponta, mas somente para quem pagar por ela (Imagem: Divulgação/Zoom)

A notícia teve recepção mista na comunidade especializada, com profissionais e consultores do setor mostrando reações adversas ou positivas em relação aos planos da empresa. A pesquisadora a serviço da Electronic Frontier Foundation Gennie Gebhart disse esperar que o Zoom “mude o curso e ofereça vídeos protegidos de forma mais abrangente”. Associado tecnológico da American Civil Liberties Union, Jon Callas acredita, porém, que a estratégia parecia ser um “comprometimento razoável”.

“Aqueles de nós que trabalham na segurança das comunicações acreditam que precisamos tomar atitudes contra coisas realmente horríveis”, disse Callas. “Cobrar valores para a criptografia de ponta a ponta é uma forma de nos livrarmos da ‘ralé’”.

Por “ralé”, Callas referiu-se a spammers, trolls e pedófilos que, segundo especialistas em segurança digital, usam da criptografia de ponta a ponta para evitar serem identificados quando estão executando seus golpes ou predando crianças pela internet.

Caminho conturbado

O Zoom vem movendo diversos recursos para mudar a má percepção adquirida pelo app no começo do ano: devido ao isolamento social frente à epidemia da COVID-19, o software de vídeochamadas se tornou extremamente popular com empresas que passaram a trabalhar em home office e entes queridos que se viram distantes uns dos outros.

Entretanto, problemas repetidos de segurança — de trolls invadindo reuniões privadas e bombeando spams pornográficos até o próprio Zoom admitindo mentira quando disse trazer criptografia de ponta a ponta, quando apenas uma parte do software de fato tem o recurso — fizeram com que as pessoas questionassem sua confiabilidade.

“Ao mesmo tempo em que o Zoom tenta aprimorar a proteção [de usuários], também aprimora de forma significativa sua confiabilidade e segurança”, comentou Stamos. “O CEO [Eric Yuan] olha para diferentes abordagens", completou.

Alex Stamos foi o CSO do Facebook até agosto de 2018, juntando-se ao Zoom como consultor em abril de 2020 (Foto: Divulgação/Facebook)

A criptografia de ponta a ponta se tornou popular por causa de aplicativos como WhatsApp e Telegram, que a aplicam na proteção de mensagens trocadas entre usuários. De uma forma bem resumida, ela impede que conteúdos trocados entre duas ou mais pessoas possam ser visualizados por terceiros, mesmo que o “terceiro” seja a própria empresa que faz o app.

Stamos argumentou, porém, que esse benefício vem com um sacrifício que a empresa não parece estar a fim de fazer: segundo ele, uma camada de segurança como essa, se disponibilizada de forma aberta a toda a base de usuários, faria com que a equipe de segurança e confiabilidade do Zoom ficasse “incapaz de se inserir como participante em reuniões e atacar comportamentos abusivos em tempo real”, diz um trecho da Reuters. Ademais, esse método de proteção acabaria excluindo usuários que se conectam às videochamadas por linhas telefônicas.

Fonte: Canaltech